Meses já haviam se passado desde que Robert, de inopino, havia me atacado e me alertado sobre o porvir.
Um turbilhão de conjecturas e suposições, uma mais absurda e ausente de bom senso que a outra, passavam por minha cabeça.
"Tomar cuidado"
Tomar cuidado com o quê?
Já havia sido atacado antes. Por razões que até agora desconheço.
Primeiro, os acontecimentos na biblioteca e depois um espirito de nome Elliot possuindo Robert e usando-o como forma de comunicação.
E porque eu? O que havia em mim de tão atrativo que fizesse a morte me circundar a cada período de 24 horas?
É tudo incógnita pra mim.
Até a minha relação com Robert é oculta. Não sei dizer onde termina a fraternidade e onde começa a comunhão ou vice-versa. Tem coisas que só o tempo vai revelar, talvez esta seja uma delas.
******
O tangido acompanhado da vibração do despertador me acordaram.
Faltava pouco pro ano letivo terminar.
Robert ainda continuava a morar conosco, a dormir no meu quarto e a ocupar a posição de único confidente e amigo. Meus pais já haviam se acostumado com a ideia de tê-lo como um terceiro filho, inclusive.
Nada havia acontecido desde a possessão de Rob. Já estávamos no fim de Fevereiro, o tempo voou rápido, assim como as flores da primavera que iriam voar brevemente.
Confesso que desconfiei dessa ausência. Dessa paz. Calmaria.
Não é comum. E se está dessa forma, é porque algo tenebroso está propínquo.
— Chega de pensar tanto, Harry. Isso vai enlouquecê-lo — disse Robert, agindo como de costume: destruindo a minha linha de raciocínio.
— Quanto mais penso, mais confusa é essa situação, Robert. Essa quietude está me inquietando. Me fazendo criar hipóteses e mais hipóteses, me fazendo pensar em cois—
— Absurdas. Eu sei. Você acha que não me desespero por não saber o que pode acontecer a você e a sua família? — perguntou ele com voz calma, timbre suave e até apreensivo, prevendo as minhas próximas palavras.
— E com você — acrescentei.
— É, comigo também — disse com escárnio, como se a própria vida fosse algo pra se pensar depois, ao mesmo tempo em que sorria por saber que alguém se preocupava.
Após o mutismo contíguo de nós dois durante um certo tempo
— que decerto era confortável
— descemos para tomar o café da manhã.
— Meus pais, eles...
— Saíram logo cedo! — respondeu prontamente Robert enquanto colocava o café — Foram até o centro com Henry resolver umas pendências.
— Ah. Claro.
Abancamo-nos em volta da mesa e concomitantemente conversávamos.
Me admirava a forma como ele se portava. Espontâneo, desinibido, distraído e arriscava-se até dar umas risadas mais audíveis. Não se assemelhava — nem de longe — com o Robert fechado, frio superficialmente e monossilábico que parecia ser.
Era uma sensação boa de estar fazendo bem a você; ao outro.
Era uma manhã fria de 17 de Julho. Janelas embaçadas. Cortinas balançando, benévolas. O vento frio, sorrateiramente, se esquivando por entre as frestas e cercando nossos pés, causando-nos arrepios.
A campainha soou.
Virei-me para Robert tentando encontrar uma resposta muda e telepática através do olhar, de quem seria. Procurando ser o menos ruidoso possível. Se fosse o caso, podia até permanecer em silêncio absoluto e fingir que a casa estava vazia.
Seu olhar indicava não saber a resposta. Como o meu.
— Eu abro — respondeu ele levantando-se pronto para receber o desconhecido.
— Espera — disse eu, preocupado, tentando imaginar quem poderia ser — Só vamos abrir essa porta quando soubermos quem é.
— Existe outra maneira de saber senão perguntar?
Olhamos pela abertura de vidro da porta. Era o correio, um tanto deformado pela falta de foco e nitidez do vidro.
Suspiramos, aliviados. Subitamente, aquela sensação de pavor e medo se esvaiu.
— Bom dia, Harry! — disse o carteiro sorridente.
Me era familiar. Não o bastante para lembrar seu nome, mas, familiar.
— Bom dia... Carteiro.
Recebi as cartas e ele se foi.
Durante toda o ocorrido, Robert não parava de fitá-lo, como se ele pudesse oferecer qualquer perigo.
— Te juro que esperava tudo, menos uma carta.
— É, eu também não. Talvez precisemos parar de pensar em coisas ruins e descansar mais a cabeça — ele sugeriu.
— Não, não podemos ficar vulneráveis. Precisamos estar sempre atentos. Você ouviu bem? O ataque vem de e quando menos se espera.
— Tem razão. Não podemos dar nenhum sinal de fraqueza.
— Uhum — assenti.
Coloquei as cartas em cima da mesa. Nem li. Nem vi.
Coloquei as cartas em cima da mesa. Nem li. Nem vi.
— Escuta: preciso ir tomar um banho agora, não me sinto limpo há dias — avisou Robert enquanto se levantou do sofá e foi subindo as escadas — Qualquer coisa, grita.
— Pode deixar.
Alguns minutos se passaram e adjacente ao ruído do chuveiro no andar superior, ruídos audivelmente parecidos com estalos vinham do sótão.
Quisera eu acreditar que era a mobília ou a madeira velha. Mas, infelizmente, nada comum acontece nessa casa. Encoberto pelo som do chuveiro, o ruído era quase que não perceptível, principalmente para Robert.
Subo até o andar superior e passo pelo corredor de várias portas, até chegar em uma que dá acesso ao segundo piso. Sótãos nunca são lugares muito frequentados, limpos ou agradáveis, deve ser pela incrível sensação de morte que existe lá.
Com o coração acelerado e o pressentimento de algo ruim por vir, abri a porta.
Estava escuro, mas entrava luz suficiente pela janela superior para enxergar que não havia nada ali. Entrei para enxergar mais concisamente o local. Após alguns passos, me encontrava no centro do sótão. Só.
A porta bruscamente se fechou.
Simultaneamente, o som do chuveiro cessou.
Silêncio total.
Calafrio.
E contraditoriamente, uma corrente de calor passava pelas minhas pernas até a espinha, me deixando imóvel, sem reação.
Silêncio total.
Calafrio.
E contraditoriamente, uma corrente de calor passava pelas minhas pernas até a espinha, me deixando imóvel, sem reação.
Uma voz suave e aguda disse no meu ouvido, devagar e pausadamente:
— Olá, visitante.
