sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Capítulo Cinco: O Lago Gelado



É tão complicado decodificar todas as emoções contraditórias, confusas, somá-las, diminuí-las e tirar essa síntese numa palavra só. Não compreendia o que acontecia comigo, mas seja lá o que fosse, esperasse que fosse embora com a rapidez que veio.
Finalmente havíamos chegamos ao Lado Gelado, quanto mais nos aproximávamos, mais frio e ventoso ficava. A altura de onde estávamos até o lago era de aproximadamente 200 metros, tínhamos que rodear e descer pelas pedras até o lago.
- Nós não vamos entrar, não é? – disse eu enquanto meus lábios temiam de frio e minha cara transparecia preocupação.
- Eu vou, não sei quanto a você.
- Robert, você definitivamente não vai entrar nisso, deve estar á uns 0º graus ou talvez mais frio. Não mesmo.
Robert não parecia lógico, inteligente e calmo naquela hora. Parecia mais disposto a um suicídio.
E então, começou a tirar suas vestes, rapidamente, olhava para a água fixamente, desejava a água, fiquei meio preocupado com aquele olhar.
- Eu realmente tenho que entrar – disse disposto a matar quem o impedisse.
- Olha, Robert.. Não é uma boa ide..
- NÃO ME INTERESSA! – disse ele elevando o tom de voz comigo.
Nesse momento, a água começou a se movimentar mais rapidamente, as ondas dobraram seu tamanho e a água parecia mais quente.
Virei minha cabeça levemente para a direita e me sentei, o que, por Deus, aconteceu com o Robert?
Ele rapidamente “voltou ao si” e sentou-se junto a mim.
- Harry... Desculpa, eu não queria gritar daquele jeito com você, eu não sei o que deu em mim. Perdoa-me – disse ele visivelmente pesaroso.
Ainda um tanto assustado, olhei para ele e concordei com a cabeça.
- Não ia tomar seu banho? Então vai.
- Não, eu não quero mais. A água parece mais quente agora, eu sei lá, a vontade passou.  
- Bom, nesse caso, não vejo motivo para não vestir sua camisa novamente.
Ele riu e vestiu-se e  voltou a sentar-se do meu lado.
- Escuta Robert, sobre seus avós. Como foi que eles... Mudaram de planeta? – perguntei eu um pouco hesitante.
- Ora, por favor, Harry, “mudar de planeta” não é adequado, falecer seria melhor. Eles morreram quando eu tinha 14 anos. Meu avô teve um ataque cardíaco repentinamente e alguns dias depois minha vó morreu por causa da forte depressão que ela estava.
- Desculpe perguntar..
- Não, tudo bem. Não vejo por qual razão eu te esconderia qualquer coisa. Sinta-se livre para me perguntar qualquer coisa – disse ele sorridente.
- Nossa, isso foi meio inesperado. Digo, você é meio misterioso, não?
- O fato de eu ser misterioso não me impossibilita de ter amigos ou comentar sobre a minha vida, não?
- Eu acho que não.
Bi Bi Bi Bi
O relógio marcou 07h00. A hora em que meus pais geralmente se levantavam, tínhamos que voltar.
Fomos caminhando pela grama até a casa, cada vez mais rápidos.
Meu pai já estava na varanda com seu binóculo procurando por nós, até acenamos para ele indicando localização.
Finalmente, chegamos.
- Pai, já acordou?
- Sim, todos já, exceto Henry, claro. Porque ainda de pijamas? – disse ele enquanto escondia uma risada.
- Ah, decidimos ir até o lago e não pensamos mais em nada, nem nas roupas – disse eu imediatamente.
- E como estava?
- Nós não entramos, parecia quente – disse Robert.
- Quente? O Lago Gelado quente? Contraditório hein? Esquisito, não deveria estar.
Eu e Robert nos olhamos esperando que tivéssemos uma explicação boa o suficiente para apresentar ao papai, mas... Nada saiu.
Ouvi um som semelhante a uma campainha tocar. Fui até a porta da frente verificar. Abri a porta. Não havia ninguém.
- O que foi? – perguntou Robert confuso.
- Tocaram a campainha, mas... Não há ninguém na porta.
- A campainha não tocou querido – disse Katherine um tanto perturbada.
Robert olhou-me fixamente nos olhos e era como se uma mensagem me fosse passada, como se ele me entendesse.
- Eu tenho certeza que ele deve ter ouvido um ruído semelhante a uma campainha, mas se enganou, não foi Harry? – comentou Robert tentando resolver a situação, convicto.
Não tinha palavras para dizer nada, Robert as me poupou.
- Sra. Ward, vamos subir e trocar esses pijamas, tudo bem? – disse ele educadamente.
- Claro e desçam logo para o café da manhã.
Subimos as escadas e fomos até o meu quarto, ao chegarmos lá, Robert fechou a porta e pediu que eu me sentasse em uma das camas perpendicular a ele.
- Preciso que me diga o que anda vendo recentemente – olhando para mim seriamente, disse Robert.

 Olhei para a janela buscando uma resposta nos vastos campos arbóreos, respirei fundo, fechei os olhos tentando negar a tal iminência. Vislumbres das tais visões roubaram minha mente rapidamente, em flashes.
- E-e-eu... Não sei bem o que vi. Mas tenho uma teoria, talvez. – disse tartamudeando enquanto me sentava na cama.
Robert levantou-se da cama, ajoelhou-se, buscou equilíbrio apoiando-se em meus joelhos e me fitou nos olhos atenciosamente, como se soubesse do que se tratava, esperando apenas uma confirmação e disposto a me ajudar.
- Sim...? – disse ele.
- A minha teoria é que... Eu posso ver coisas mortas.
Robert levantou-se e foi até a janela, em silêncio.
- Por favor, fale qualquer coisa. Este silêncio me apavora, é como se ninguém me ouvisse, me acreditasse, como se zombassem de mim e isso me desespera, fale-me o que pensa – disse eu ofegante enquanto meu peito depauperado exalava o ar muito rapidamente.
- Eu não te contei isso antes porque, nem eu tinha certeza do que estava acontecendo e não seria crível.
O torpor tomou de conta do meu quarto. A chuva caiu e sorrateiramente as gotas escorriam pela janela do meu quarto até o chão. Já podia ouvir doestas e apupos alcançando aos meus ouvidos, achei que enlouqueceria.
Robert virou-se para mim e retirou-se do quarto, a porta entreaberta permitia-me ver sua saída. Não estava entendendo. Porque ele saiu? Porque ele me deixou?
É este o significante motivo de eu não possuir amigos? E quando encontro um, ele me deixa ao aclarar-se de minha verdadeira identidade? Não, quero esclarecimentos.
Logo em seguida, o segui. Pegada trás pegada. Ele já estava no exórdio da estrada que levava até o colégio, tudo começou a ficar mormacento e lamaceiro, algo semelhante a um pântano. Ainda de meias, corri em sua direção. Ele caminhava de cabeça baixa logo à frente sem cessar. A placa "Drawtown Village 1992" não parecia tão enferrujada como de costume, parecia ter algo a mais escrito nela, ainda invisível. 
Corri, corri e corri mais um pouco. O alcancei, parei em sua frente e o fitei. Estava encharcado, sua roupa grudada ao corpo e seu cabelo pretos no rosto branco, seus lábios mais vermelhos que o normal e uma ligeira tremura atingia seu corpo atlético. Aproximou-se lentamente de mim, ergueu sua mão sobre minha cabeça, até minha nuca e me deslocou até seu peitoral onde pude ouvir seu coração, circundou seus braços sobre mim e finalmente, me abraçou.
Ainda sem entender toda a situação, envolvi meus braços ao seu redor vagarosamente e também o abracei. O maior gesto cordial e sincero de toda a minha vida.


Nenhum comentário:

Postar um comentário