quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Capítulo Dois: O Ócio Chegou ao Fim

Um mês se passou desde a visita inesperada da tal senhora. Era o primeiro dia de aula, não estava tão ansioso para o começo de mais um ano de esforço, luta e muito estresse. E sabe aquela animação de ver tudo novo e conhecer pessoas novas, cheio de ideias e tudo mais? Bom, eu não tinha aquela animação.
Meus pais nos levaram (Henry e eu) até o colégio. Logo que cheguei, me encaminhei para a sala. Procurei sentar lá no fim, esperando que ninguém me notasse, falasse ou olhasse para mim. Irônico, já que é isso que, provavelmente, iria querer depois de certo tempo. A sala foi começando a se ocupar, cada vez mais rápido. O sinal do toque ás 13h10 encerrou o período de vai-e-vem e de entrada na classe. A primeira aula foi de apresentações, tour pela escola e normas escolares, maçante, por sinal. Soou o toque do intervalo, e veio em boa hora, eu daria tudo para assistir aula ao invés de ir á tal tour, minhas pernas estavam doídas.
É mania minha ir à biblioteca de qualquer colégio, minha maneira avaliativa escolar, se os livros são bons e interessantes, a escola consequentemente deve ser. Autores como Luiz Fernando Veríssimo, Martha Medeiros, J.K Rowling e Paulo Coelho eram prioridades minhas na seção de Literatura Estrangeira.
A biblioteca possuía dois andares largos e compridos, suas estantes altas e gordas me brilhavam os olhos. Gostava de ler. Por isso, aproveitei os intervalos para ler sempre que a oportunidade era me dada.
Em casa, ouço vozes distantes me chamando de vez em quando, mas nada que me assustasse.
Meus dias escolares estavam indo bem, conheci algumas pessoas, já estava me sentindo mais á vontade.
Algo meio esquisito me aconteceu no dia 15 de fevereiro... Cheguei ao portão da escola, entrei, fui caminhando até a minha sala – para isso, tive que atravessar um longo gramado com letras garrafais com os dizeres: “Alberta’s School” -, porém, me surpreenderam ali mesmo, na grama.
- Olá – disse um garoto que nunca havia visto na vida. Alto, branco, de cabelos pretos e lisos curtos, olhos azuis meio esverdeados e pretos, de voz calma e grave.
- Olá... Você é...? – disse eu meio que apressado e tentando passar por ele.
- Robert Wattson, da turma da 3ª série, muito prazer – disse ele gentilmente sorrindo.
- Ah, muito prazer. Eu sou.
- Harry, eu já te conheço – disse ele quebrando o meu raciocínio.
- Como me conhece?
Os olhos dele fixaram em mim em um intervalo de alguns segundos e depois respondeu:
- Ah, ouço as pessoas falando seu nome por aí e conheço o seu irmão, o Hery, certo?
- Henry, o nome dele é Henry. E é intrigante você ouvir meu nome por aí, já que nem sou tão popular assim – disse um pouco desconfiado.
Ele sorriu involuntariamente e ficou meio sem jeito, não consegui analisar se ele estava mentindo ou não.
- De qualquer maneira, prazer Wattson. Preciso ir para a aula, é Biologia e vamos ter que plantar algumas plantas carnívoras.
- Ah claro, sem problema... Desculpe pela abordagem repentina.
- Hm, está bem.
Aquilo tinha me atrasado pelo menos 5 minutos, porém, como é que ele sabia meu nome? Por favor, que desculpa mais grotesca, mal cheguei ao colégio e já “comentam” de mim pelas alas escolares? Eu acho que não. Dirigi-me até uma das estufas do colégio – que fica bem longe do portão – e plantei uma muda de planta carnívora, que por sorte, não tinha dentes. As aulas daquele dia foram monótonas e silenciosas. Voltei para casa, dessa vez, fui de ônibus. A parada mais próxima da minha casa ficava á uns 250 metros, e já eram 18h30, não era muito seguro fazer este tipo de caminhada, mas decidi ir.


A estrada era totalmente gramada e arenosa, longa e nem sinal da minha casa. Existiam florestas nas duas direções, altos pinheiros, e arbustos encantando o caminho, até desviei de alguns galhos espinhosos. Caminhei com passos largos e rápidos, estava com um sentimento de medo profundo no meu coração, uma dor aguda. E a cada pisada em um galho, meu reflexo se ativava, e meu medo só aumentava.
Para piorar, ouvi passos atrás de mim, galhos e pedras sendo pressionados um pouco atrás de mim e não eram dos meus pés que saíam essas pressões. Sentia uma presença muito forte vinda dos arbustos, em minha direção, olhava para trás e nada. Naquela altura, já estava correndo. Perguntei-me se eram 250 metros ou 250 km, parecia não chegar nunca. Finalmente, avistei minha casa, diminui o ritmo e fiquei mais aliviado.
Parei de andar.
Shac shac shac
Som de sapatos tocando o chão e rangendo. Bom, eu havia parado de andar então...
- Ah, finalmente te encontrei. – disse uma voz abafada e baixinha.
Congelei. Meu coração parou de bater, eu podia ir para o céu. Minha alma saiu do meu corpo, imaginei a minha vida em quadrinhos logo na minha frente, não sei se foi exagero.
Eu não vou me mexer por nada neste mundo – pensei.
Os passos agora estavam realmente vindos em minha direção, lentamente. O sentimento do medo foi me consumindo. Estava sem chão.
A tal criatura assustadora me tocou no ombro esquerdo, gélida. Apertou-o. Fechei meus olhos, orei. Era o fim.

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