sábado, 4 de agosto de 2012

Capítulo 11 - A New Phase.


Pessoal, a partir do 11º capítulo – este – os capítulos serão postados em PDF e em um novo formato. Os links para download serão disponibilizados. Aproveitem!
E obrigado pela leitura.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Capítulo Dez: Encerrando o ciclo.



Meses já haviam se passado desde que Robert, de inopino, havia me atacado e me alertado sobre o porvir. 
Um turbilhão de conjecturas e suposições, uma mais absurda e ausente de bom senso que a outra, passavam por minha cabeça. 
"Tomar cuidado
Tomar cuidado com o quê? 
Já havia sido atacado antes. Por razões que até agora desconheço. 
Primeiro, os acontecimentos na biblioteca e depois um espirito de nome Elliot possuindo Robert e usando-o como forma de comunicação. 
E porque eu? O que havia em mim de tão atrativo que fizesse a morte me circundar a cada período de 24 horas? 
É tudo incógnita pra mim.
Até a minha relação com Robert é oculta. Não sei dizer onde termina a fraternidade e onde começa a comunhão ou vice-versa. Tem coisas que só o tempo vai revelar, talvez esta seja uma delas.

******
O tangido acompanhado da vibração do despertador me acordaram. 
Faltava pouco pro ano letivo terminar. 
Robert ainda continuava a morar conosco, a dormir no meu quarto e a ocupar a posição de único confidente e amigo. Meus pais já haviam se acostumado com a ideia de tê-lo como um terceiro filho, inclusive.
Nada havia acontecido desde a possessão de Rob. Já estávamos no fim de Fevereiro, o tempo voou rápido, assim como as flores da primavera que iriam voar brevemente.
Confesso que desconfiei dessa ausência. Dessa paz. Calmaria.
Não é comum. E se está dessa forma, é porque algo tenebroso está propínquo. 
— Chega de pensar tanto, Harry. Isso vai enlouquecê-lo — disse Robert, agindo como de costume: destruindo a minha linha de raciocínio.
— Quanto mais penso, mais confusa é essa situação, Robert. Essa quietude está me inquietando. Me fazendo criar hipóteses e mais hipóteses, me fazendo pensar em cois
— Absurdas. Eu sei. Você acha que não me desespero por não saber o que pode acontecer a você e a sua família? — perguntou ele com voz calma, timbre suave e até apreensivo, prevendo as minhas próximas palavras.
— E com você — acrescentei.
— É, comigo também — disse com escárnio, como se a própria vida fosse algo pra se pensar depois, ao mesmo tempo em que sorria por saber que alguém se preocupava.

Após o mutismo contíguo de nós dois durante um certo tempo    que decerto era confortável  descemos para tomar o café da manhã.

— Meus pais, eles...
— Saíram logo cedo! — respondeu prontamente Robert enquanto colocava o café — Foram até o centro com Henry resolver umas pendências.
— Ah. Claro. 

Abancamo-nos em volta da mesa e concomitantemente conversávamos.
Me admirava a forma como ele se portava. Espontâneo, desinibido, distraído e arriscava-se até dar umas risadas mais audíveis. Não se assemelhava — nem de longe — com o Robert fechado, frio superficialmente e monossilábico que parecia ser. 
Era uma sensação boa de estar fazendo bem a você; ao outro. 
Era uma manhã fria de 17 de Julho. Janelas embaçadas. Cortinas balançando, benévolas. O vento frio, sorrateiramente, se esquivando por entre as frestas e cercando nossos pés, causando-nos arrepios.
A campainha soou. 
Virei-me para Robert tentando encontrar uma resposta muda e telepática através do olhar, de quem seria. Procurando ser o menos ruidoso possível. Se fosse o caso, podia até permanecer em silêncio absoluto e fingir que a casa estava vazia. 
Seu olhar indicava não saber a resposta. Como o meu.

— Eu abro —  respondeu ele levantando-se pronto para receber o desconhecido.
— Espera — disse eu, preocupado, tentando imaginar quem poderia ser — Só vamos abrir essa porta quando soubermos quem é.
— Existe outra maneira de saber senão perguntar?
Olhamos pela abertura de vidro da porta. Era o correio, um tanto deformado pela falta de foco e nitidez do vidro.
Suspiramos, aliviados. Subitamente, aquela sensação de pavor e medo se esvaiu. 
— Bom dia, Harry! — disse o carteiro sorridente.
Me era familiar. Não o bastante para lembrar seu nome, mas, familiar. 
— Bom dia... Carteiro.
Recebi as cartas e ele se foi. 
Durante toda o ocorrido, Robert não parava de fitá-lo, como se ele pudesse oferecer qualquer perigo.

— Te juro que esperava tudo, menos uma carta.
— É, eu também não. Talvez precisemos parar de pensar em coisas ruins e descansar mais a cabeça — ele sugeriu.
— Não, não podemos ficar vulneráveis. Precisamos estar sempre atentos. Você ouviu bem? O ataque vem de e quando menos se espera.
— Tem razão. Não podemos dar nenhum sinal de fraqueza. 
— Uhum — assenti.
Coloquei as cartas em cima da mesa. Nem li. Nem vi. 
— Escuta: preciso ir tomar um banho agora, não me sinto limpo há dias — avisou Robert enquanto se levantou do sofá e foi subindo as escadas — Qualquer coisa, grita. 
— Pode deixar. 
Alguns minutos se passaram e adjacente ao ruído do chuveiro no andar superior, ruídos audivelmente parecidos com estalos vinham do sótão. 
Quisera eu acreditar que era a mobília ou a madeira velha. Mas, infelizmente, nada comum acontece nessa casa. Encoberto pelo som do chuveiro, o ruído era quase que não perceptível, principalmente para Robert. 
Subo até o andar superior e passo pelo corredor de várias portas, até chegar em uma que dá acesso ao segundo piso. Sótãos nunca são lugares muito frequentados, limpos ou agradáveis, deve ser pela incrível sensação de morte que existe lá.
Com o coração acelerado e o pressentimento de algo ruim por vir, abri a porta.
Estava escuro, mas entrava luz suficiente pela janela superior para enxergar que não havia nada ali. Entrei para enxergar mais concisamente o local. Após alguns passos, me encontrava no centro do sótão. Só.
A porta bruscamente se fechou. 
Simultaneamente, o som do chuveiro cessou. 
Silêncio total.
Calafrio.
 E contraditoriamente, uma corrente de calor passava pelas minhas pernas até a espinha, me deixando imóvel, sem reação. 
Uma voz suave e aguda disse no meu ouvido, devagar e pausadamente:
Olá, visitante.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Capítulo Nove: Misterioso Aparecimento


E lá estava eu, dançando sem música alguma em uma biblioteca assombrada ás 5h05 da manhã...
Fechei os olhos e escutei a melodia em minha mente, era um tipo de valsa compassada de uma pessoa só. De repente, tropecei em meus próprios pés descalços e senti meu corpo caí ao chão...
Caí e acho que o ruído da queda pôde ser ouvido pela casa inteira, orei para que não. Permaneci no chão, aquela dor me trouxe prazer, me deu consciência do que estava fazendo, estava meio paranoico. Fechei os olhos e imaginei milhares de coisas. Tive um pesadelo com algumas pessoas que nunca havia visto antes e no fim dele ouvia Robert me chamar, distante.
- Harry, Harry, Harry! – gritou Robert desesperado quando desceu as escadas – ainda de pijamas brancos, sem camisa e descalço – e me viu naquele estado.
Abri os olhos, havia dormido e quando acordei a primeira a ver foi o rosto de Robert olhando para meus olhos com aflição. Suspirou ao ver que havia acordado.
- Como foi que foi parar aí? – perguntou ele meio descontrolado e com cara de sono com cabelos bagunçados e um tanto desequilibrado.
- Eu..eu.. – tentei me lembrar enquanto ele me puxou para levantar – estava dançando, então, eu caí.
Ele riu e perguntou:
- Estava dançando? Às 5h05 da manhã sem música alguma em uma biblioteca potencialmente perigosa?
- Eu me fiz essa mesma pergunta, mas não achei que soaria tão ruim até você me dizer – disse enquanto tocava minha cabeça, estava sangrando.
- Mas, o quê..?
Robert tocou minha cabeça e viu o sangue.
- Robert, não é nada.
Senti-me um pouco tonto e desmaiei. Acordei uma hora depois no hospital.
Acordei em uma sala branca com duas cadeiras na ponta esquerda ao meu lado com Robert e mamãe sentada nelas.
- Mãe, o que houve..? – perguntei com um pouco de dificuldade.
- Filho, você bateu a cabeça e desmaiou. Robert foi nos chamar imediatamente, e os trouxemos até aqui, o médico disse que repouso e descanso te farão bem. Não deve se esforçar tanto. Vou até o seu pai e seu irmão ver como estão os exames finais, já volto.
Robert levantou-se e permaneceu em pé, com suas mãos devidamente guardadas nos bolsos, me fitando alguns minutos. Abaixei minha cabeça.
- Fiquei preocupado com você, muito – disse ele com a voz meio baixa.
- Não deveria, vaso ruim demora a quebrar...
- Para – replicou ele rapidamente -, você poderia ter morrido, eu não sei. E isso não é engraçado, não é.
Virou seu rosto para o lado.
- Robert, eu só estava brincando... Acalma-se. Desculpa – desculpei-me um tanto arrependido.
Ele se aproximou e puxou a cadeira para próximo a mim, sentou-se. Puxou minha mão e com seu dedo foi subindo... Aquilo me fez cócegas.
- Harry, existia uma pessoa. Muito só. Cheguei até a ter dó de sua solidão. Ele viajou e viajou. Até que ele chegou a uma cidade – disse ele levando o braço até o meio do meu braço.
- E então?
- E então, ele chegou a uma escola nova – andou um pouco mais com o dedo.
- Conheceu pessoas novas – subiu devagar até o ombro.
- Mas, uma em especial, fez a diferença em sua vida. Ensinou-o como mentir, ser mais brincalhão, rir, mostrar como ele realmente era. Essa pessoa foi e é acima de tudo, meu melhor amigo. Ou muito mais do que isso... – suavemente moveu seu dedo até meu coração.
- E hoje, ele vive aqui. No seu coração, e você vive no dele – conclui sorrindo para mim com uma lágrima escorrendo pelo seu rosto até minha mão.
Senti-me culpado por sua felicidade. Mas, principalmente, senti-me culpado por suas lágrimas.
Sorri, puxei sua mão e coloquei a lágrima delicadamente em seus cílios.
- Ninguém, nem mesmo eu, merece fazer você derramar uma lágrima.
- Lágrimas nem sempre significam tristeza Harry. Lágrimas podem significar alegria – disse ele enquanto passou o dedo pelo olho e tocou minha mão.
- Sabe Robert. Amigos são definitivamente as coisas mais importantes da sua vida, sua segunda família. O amor sempre acaba, a amizade não. A amizade não permite ciúmes, permite sorrisos. Fico extremamente feliz por ter você como amigo e mais feliz ainda por estar aqui, mesmo em razões tão bobas.
- Eu só tenho um amigo. Fico feliz por ser você.
Meus pais entraram acompanhados do médico.
- E aí rapaz? Melhor? – perguntou o médico.
- Com certeza, sim.
- Te examinamos, está tudo bem. Só uma pancada forte. Infelizmente, terá que dormir aqui esta noite, só como garantia – disse o médico enquanto anotava algumas coisas e olhava para todos.
- Temos algumas camas e suítes no fim do corredor, usado para internações, mas se algum de vocês quiser dormir aqui, podem utilizá-lo.
- Eu tenho certeza que meu irmão ficará bem sem mim, vou dormir em casa – disse Henry.
- Harry, a mamãe ou papai pode ficar com você, se quiser – disse mamãe.
- Eu também posso, não tenho nada para fazer – ofereceu-se Robert.
- Papai, Henry podem ir para casa. Mamãe e Robert podem ficar comigo. Obrigado.
Providenciamos o quarto, me transferiram para lá e lá ficamos. E o dia passou. O sol se pôs. Anoiteceu. Eram 19h00.
Meus planos para o domingo foram destruídos por minha culpa. Estava em um hospital preocupando quem eu amo, ao invés de estar em qualquer outro lugar no mundo.
Havia certa gritaria do lado de fora do meu quarto, uma mulher. Robert e minha mãe haviam ido até a lanchonete do hospital comer alguma coisa. Decidi sair para ver o que estava acontecendo, estava comente com aquelas roupas longas e brancas de hospital, nada de soro ou medicação.
- ME DEIXEM VER MEU FILHO, EU PRECISO SABER COMO ELE ESTÁ! – gritava a tal mulher desesperada com uma das atendentes.
Vi um adolescente com uma roupa de hospital caminhando em direção a mulher, era seu filho.
Meus olhos encheram de lágrimas. Somente eu podia vê-lo. Ele estava morto. Não havia resistido. Ele olhou para mim parecendo confuso, não entendendo a situação. Veio até a mim.
- Você pode me ver...? – perguntou ele pesaroso, como se eu fosse sua ultima esperança.
- Posso, posso sim – respondi com uma dor imensurável.
Engoli a seco, não ia ter coragem de contar o que estava acontecendo a ele, me parecia tão confuso e disposto a fazer tudo para continuar ao lado da mãe. As pessoas passavam de um lado para o outro e lá estava eu chorando conversando com algo que só eu podia ver.
- Então, o que aconteceu? Porque ninguém consegue me ver? E porque meu corpo está na capa e eu estou aqui? Minha cabeça não está processando tudo isso.
Respirei lentamente e enchi meus pulmões de ar, como meio de criar coragem.
- Qual o seu nome? – perguntei enxugando minhas lágrimas com o braço.
- Peter, Peter Phillips.
- Peter, eu posso te ver por alguma razão, ainda não sei. Mas – mordi meus lábios – você... Não resistiu. Você morreu.
- Não, não. Eu não posso, minha mãe, ela só tem a mim.. Não pode ser – revogou ele colocando as mãos na cabeça um tanto desesperado.
- Eu sei Peter, mas... Chegou a hora.
Peter parecia disposto a fazer a coisa certa... Despediu-se de sua mãe e foi embora, para o outro lado.
Voltei para minha cama e adormeci.


Amanheceu. Espreguicei-me, estirando meus braços, bocejando, ainda pelo efeito do sono. Limpei meus olhos e avistei Robert e mamãe ainda deitados. Sentia-me bem melhor, a minha cabeça parecia recuperada e me sentia energético, ativo. Eram 08h00. O café da manhã do hospital – com aparência repugnante, por sinal – estava sobre uma mesa que ficava na lateral da sala, não ia comer aquilo de forma alguma, precisava voltar para casa, meu colchão macio e frio me aguardava, o piso de madeira, o ambiente em si.
Abri a porta do quarto e fechei silenciosamente, o chão do corredor estava gelado devido à umidade e ao chuvisco da noite passada. Estava sendo ventilado em locais um tanto particulares. Fui até a recepção.
- Com licença... Eu estou internado naquele quarto, o de número 96 – disse eu enquanto apontava para o quarto há alguns metros de distância, mirei o número por alguns segundos, como se houvesse algo que eu devesse ver – e já estou me sentindo bem, vocês não podiam me dar alta?
- Qual o seu nome? – perguntou a recepcionista.
- Oh, claro. Harry Green Ward.
A recepcionista de nome Emilly Gissing checou no computador e disse:
- O Dr. William Isherwood vai liberá-lo brevemente, no máximo ás 10h00. Eu sugiro ao senhor dirigir-se até o quarto e permanecer na posição que estava, deitado e repousando – nesse momento, dirigiu seus olhos pretos para minha face e me olhou seriamente -.
Esquivei meu olhar e respondi de cabeça baixa.
- Tudo bem, já estou indo...
Caminhei, pé ante pé, na ponta dos dedos, até o meu quarto. O chão estava realmente frio.
Fechei a porta silenciosamente.
Fui andando de costas ainda na ponta dos dedos até encontrar a cama, apalpando os objetos.
Toquei em um tecido meio quente e macio, era um casaco, estranhei, o lençol da cama era de seda e não algodão. Movi-me para trás e avistei Robert um tanto sonolento.
- Bom dia campeão, está melhor? – perguntou Robert enquanto se recompunha, seu cabelo estava assanhado e suas roupas, amarrotadas. Possuía uma aparência de quem havia caído da cama. Meio tonto.
Ri de sua aparência um tanto bagunçada e dirigi-me até a cama, sentei-me.
- Sim, melhor do que o previsto e pronto para ir para casa. Amém.
Robert viu se reflexo no espelho logo acima de mim e percebeu seu atual estado, rapidamente reorganizou-se.
Mamãe, um tanto atordoada, levantou-se da cama meio desconfortável.
- Bom dia meninos... Nunca senti tanta falta do meu travesseiro na vida – reclamou ela espreguiçando-se.
- Nosso sofrimento vai acabar, o Dr. William alguma coisa vem aqui no máximo, ás 10h00. Só temos que esperar... – olhei para o relógio para conferir.
- Uma hora e cinquenta e cinco minutos – disse Robert preciso.
- Exato – confirmei.
O tempo se passou... E finalmente, o doutor chegou, um pouco mais cedo que o esperado, felizmente.
- Ah, já estão todos acordados? Bom dia, rapazes e senhora – cumprimentou o Dr.
- Bom dia – respondemos todos.
- O quadro do paciente está muito bom, por isso, irei dar alta hoje mesmo. Só preciso finalizar umas coisas e já volto com os exames e a liberação autorizada.
- Tudo bem Doutor, obrigado – agradeceu mamãe.
- Não por isso – disse o doutor saindo do quarto.
Não tinha entendido o episódio ocorrente mais cedo, o do fantasma. De qualquer forma, tentei esquecer isso, não era tão importante assim e nada que o Robert precisasse saber.
O hospital chamava-se “Middleview Hospital”, ficava na cidade de mesmo nome, há 11 km de Cold Lake. Não que Cold Lake não tivesse hospitais, mas, o de Middleview parecia mais conveniente. Era segunda-feira, tínhamos aula a tarde, ás 13h10. Já eram 09h00. O tempo de viagem era de menos de uma hora, geralmente. O médico chegou, deu alta, e fomos para Cold Lake.
A vista durante a “viagem” era linda, árvores, verdor e muitos animais, aquilo chegou a me instigar a entrar na floresta e ficar lá para sempre.
Chegamos à estrada que levava para nossa casa, viramos a esquerda e seguimos direto.  
De repente, no meio da estrada, o carro parou. Bruscamente, pulamos para frente, mas ninguém se feriu. Minha mãe desceu do carro para checar se tínhamos atropelado algo e ver o motor.
Robert olhou para mim indicando mentalmente o que teria provocado tal coisa. Neguei com a cabeça, esperando fortemente que não fosse um fantasma, mas ele dolorosamente concordou.
Saímos do carro, me aproximei da mamãe.
- Mãe, já descobriu o que aconteceu? – perguntei enquanto olhava para os lados procurando pelo tal fantasma.
- Não, que estranho... Não atropelamos nada ou mesmo identifiquei problemas no motor...
- Que tal ir chamar o papai, ele está em casa, em uns 10 minutos você chega em casa, ficamos aqui vigiando o carro – sugeri como forma de ficarmos sozinhos.
- não, não posso deixá-los aqui, sozinhos – negou ela.
- Senhora Ward, eu protejo o Harry. Além do mais, está claro, ninguém se atreveria a fazer algo muito arriscado – disse Robert tentando persuadir a mamãe.
- Sendo assim, eu vou, mas se cuidem. Volto em 10 minutos – disse ele seguindo em direção a casa.
Finalmente, minha mãe dobrou a curva. Não podíamos a ver, nem ela podia nos ver.
- Quem é você? Apareça – gritei.
De repente, o corpo de Robert começou a se mexer, movimentos estranhos.
- Robert, está tudo bem? – perguntei tocando em seu ombro.
Ele virou-se para mim com os olhos raivosos e vermelhos.
- NÃO. Você! Não vai me destruir, eu não quero, você não pode, NUNCA! – gritou ele enquanto me levantava com seus braços e me apertava.
- Robert, você está me machucando, me solte – pedi enquanto olhava seriamente para ele.
- Me desculpe, mas Robert não está em casa agora, Elliot está – exclamou ele ao me jogar no chão.
Sacudi a poeira do meu corpo e me levantei.
- Mas, o que você quer? – perguntei calmamente.
Ele circundou o carro vagarosamente, parecia ter se acalmado.
- Eu? O que eu quero? Ora, você já deveria saber a esta altura. Não deveria? – perguntou ele um tanto irônico.
- Não quero que envolva ninguém nisso, a não ser eu.
- Isso só depende você, Harry...
O espírito ruim parecia ter ido embora, temporariamente, Robert sacudiu a cabeça como se algo estivesse dentro dele e olhou para mim.
- Aconteceu alguma coisa...? – perguntou ele parecendo um tanto perdido.
- Você acabou de ser possuído por um espírito mau, nada tão grave. Não entendi o que ele quis dizer. Isso tudo só me faz ficar mais confuso. Não sabia que tinha corpo aberto – disse enquanto olhava para ele.
- Possuído? Não me lembro de nada... Nem eu sabia que tinha corpo aberto.
Estava confuso. Minha mente estava longe, desconhecia o que deveria saber ou o que ele queria. Talvez fosse mais um daqueles espíritos malignos.


sábado, 19 de fevereiro de 2011

Capitulo Oito: Passeio pela Cidade.



O sol já estava indo embora, eram 19h00. Liguei para os meus pais e avisei que íamos – eu, Henry e Robert – até o restaurante da “cidade” comer alguma coisa e visitar alguns amigos. Fomos em um dos carros do papai, estava na garagem. Henry já sabia como dirigir, embora não havia tirado a carteira ainda. Mas, a fiscalização não era muito ativa pelo local, então... Passamos pela estrada que nos levou até a parada de ônibus á direita, mas decidimos seguir em frente na estrada do outro lado da pista, aonde chegaríamos até o restaurante, mais lá na frente.
Desde que moramos aqui em Cold Lake – sempre -, o restaurante está aberto, apesar da distância do centro da cidade, minha casa ainda fazia parte de Cold Lake. Trabalhavam dois funcionários e dois cozinheiros: George e Lisa Edwards, filhos de Richard e Angeline de mesmo sobrenome. O restaurante era vermelho por fora e possuía largos vidros que nos permitia ver seu interior. O local era humilde e simples, contudo, muito aconchegante. A comida era deliciosa, as pessoas aprazíveis e o local bem arejado.
Chegamos alguns minutos depois, saímos do carro e fomos até o restaurante.
Rapidamente, fomos atendidos por Lisa.
- Olá Lisa, bom te ver – disse eu sorridente.
- Ah, oi meninos. Hm, quem é o seu amigo? – perguntou Lisa simpática.
- Robert Wattson, muito prazer, Lisa, certo? – apresentou-se Robert enquanto pegou a mão de Lisa e a beijou.
- Ah isso. E muito prazer. O que vão pedir?
- Eu vou querer panquecas recheadas com caramelo e suco de acerola, por favor – pedi.
- Ah, como sempre né Harry? Café da manhã no jantar? – confirmou ela rindo.
- Exato.
- Eu vou querer uma porção de batatas fritas, bife e bastante arroz com queijo e um suco de abacaxi – pediu Henry faminto.
- E você, Senhor Wattson? – perguntou Lisa.
- Ah, eu vou pedir o mesmo de Harry, parece ser muito... Deleitável – solicitou um tanto pensativo.
 Ficamos na mesa de três assentos, da ponta próxima à porta, fiquei de frente ao Robert do lado esquerdo, Robert do lado direito e Henry no meio, de frente para o vidro. Havia crianças brincando lá fora, ao lado do restaurante não havia nada, ao contrário, era o primeiro ponto da cidade, após ele, as outras casas apareciam. Um grande campo cheio de crianças e pessoas. Pitoresco, de fato.
Então, Henry deu inicio a uma conversa com Robert, estava tentando se enturmar.
- Robert, o que gosta de fazer?
- Gosto muito de desenhar, ler, pintar, estar com os amigos e gosto de ouvir música em certos momentos.
- Ah, legal. De onde é?
- Calgary.
- Era bom lá?
- Sim, mas nada comparado a este lugar, nem a estas pessoas – respondeu ele observando as crianças e a paisagem e depois olhando para nós dois.
- Eu imagino, somos mesmo ótimos – comentou Henry presunçoso.
Neste momento, deu uma leve tapa em seu braço e olhei com um meio sorriso na cara.
Virei minha face para a rua, através do vidro, havia várias pessoas caminhando, mas havia uma parada sinalizando para mim lentamente, as pessoas atravessando-a e só eu podia vê-la. Meu rosto transfigurou-se, agora estava apreensivo. A leve dor de cabeça surgiu e minha respiração acelerou. Isso sempre me acontecia, com menos intensidade agora, talvez fosse porque a tal senhora fosse uma boa pessoa.
Robert estava conversando com Henry, mas ao mesmo tempo em que conversava, olhava para mim, já havia notado a minha apreensão. Virei-me para ele e não precisei mover meus lábios, ele já havia lido meus olhos. Paulatinamente, moveu sua cabeça para direita e avistou alguém, levou seus olhos as suas mãos inquietas e olhos desvairados. Não tínhamos ideias do que fazer, devíamos segui-la e deixar Henry só? Ou era só mais uma garantia de que realmente ela existia e podíamos enxergá-la?
 E mais uma vez, não tinha a resposta. Aliás, não tínhamos, éramos eu e Robert agora.
- Aqui estão os pedidos – disse Lisa quebrando nossa atenção e colocando os pratos e copos na mesa.
- Obrigado – agradeceu Henry.
Olhei novamente para a rua, nada além de pessoas de carne e osso. A tal Senhora adora nos visitar e simplesmente, saía de nossas vistas.
A minha preocupação cobriu o espaço no meu estômago para onde iria à comida e afastei com as mãos o prato para Robert.
- Espero que esteja com muita fome – disse eu com uma cara desgostosa.
Ele me pareceu sem fome de mesmo modo. Mas, tomou para si os dois pratos como se fossem de sua responsabilidade, comê-los.
Mirei-o com uma cara um tanto aflitiva. Sei bem o que é comer o que não gosto, aguentar o que detesto e fazer o que não me dá prazer. Puxei o prato e ele colocou a mão impedindo-me de comer e fitando-me.
Puxei novamente. Outra vez, ele impediu-me.
- Vem cá, vocês vão comer isso? – perguntou Henry com a boca cheia de comida.
Olhamos um pro outro e imediatamente empurramos os pratos em direção de Henry, pela primeira vez, sua gula foi nossa salvação.
Demos algumas risadas. Decidi pegar um dos guardanapos e pedi uma caneta a Lisa, escrevi os dizeres:
         ”O que vamos fazer?
Com o meu dedo, levei o guardanapo arrastando-o até o outro lado da mesa discretamente, de mesma maneira, Robert o pegou, leu e respondeu:
Bom... Eu não comi nada, então não vou pagar a conta. Relaxa, o Henry paga tudo rs”
Escrevi uma réplica e o entreguei:
Não sobre isso, seu idiota. Refiro-me a tal Senhora... Era a sua vó?”
Robert riu e escreveu e passou-o às minhas mãos.
Ah, suas réplicas sempre chocantes, frequentemente pueris ou duramente absurdas rs. Eu não consegui vê-la muito nitidamente, havia pessoas atravessando por ela”.
Rasguei o papel em pedaços e coloquei no lixeiro a pé da mesa, encerrando a conversa escrita.
Para passar o tédio, Robert tamborilava a mesa com suas mãos indo e voltando, em um ritmo musical. Admirei-me, vendo-o tão animado mesmo com todos os acontecimentos e até me juntei a ele, embora, um pouco desajeitado.
Bebi meu suco de acerola, Robert fez o mesmo. Pagamos a conta, agradecemos e saímos ao soar do sininho delicadamente colocado no topo da porta.
O clima daquele dia estava frio, um pouquinho menos que em minha casa, já que a quantidade de árvores era consideravelmente menor, eu morava, literalmente, no meio da floresta.
Henry foi até a casa de uns amigos a pé e Robert e eu preferimos ficar sentados em baixo de uma árvore do campo observando o movimento.
O vento estava incontrolável, porém muito agradável. 
- Crianças, tão ingênuas, carinhosas, perceptivas e expressivas – comentei em voz baixa sobre as crianças correndo a nossa volta.
- Concordo com você – disse Robert que estava contrário a mim, do outro lado da árvore, que talvez fosse a maior de todo o campo recreativo.
- “Do you ever feel, like you’re nothing..”  (Você já sentiu, como se não fosse nada...) – cantei um trecho de uma música baixinho enquanto desenhava com o dedo na grama...
- Já. Mas, isso foi até eu conhecer você, sua família, essa cidade e começar a viver tão bem. – comentou Robert enquanto me ajudava a desenhar com alguns lápis invisíveis.
Sorri amigavelmente para ele e continuamos desenhando coisas na grama, que possivelmente, só nós podíamos ver. Não, não eram fantasmas. Era a imaginação, somente.
Ficamos, eu e Robert, apontando para as casas e alguns prédios distantes, se perguntando o que seriam, nos divertimos bastante, Henry demorou cerca de uma hora fora. As luzes dos postes já haviam sido acesas e sequencialmente, iluminaram a rua. Despedimo-nos de algumas crianças que havíamos conhecidos e entramos no carro. O passeia havia sido maravilhoso para todos, a volta foi tranquila.
Quando chegamos a casa, o carro dos nossos pais já estava na garagem, haviam chegado. Entramos.
- Olá meninos. Se divertiram muito? – perguntou mamãe enquanto jantava.
- Ah, sim. Bastante.
- Foi demais.
- Inesquecível.
Respondemos sequencialmente.
- Wow, parece que se divertiram mesmo. Já devem ter comido, certo? – perguntou papai enquanto comia sua torta.
- Sim, muito. E sim, já comemos.  – respondeu Robert muito entusiasmado.
- Aliás, Henry comeu tudo. Estamos com fome – respondi olhando para Henry com ar de riso.
Preferiu nem retrucar. Subiu as escadas e foi para seu quarto.
Sentamos a mesa, comemos e logo em seguida fomos dormir. Amanhã era domingo e meus pais passariam o dia fora, ou seja, trabalho para nós. Não tínhamos nenhum plano para amanhã, mas queria fazer alguma coisa. Sair de casa um pouco. Quem sabe ir nadar no lago? Visitar a floresta? Visitar a cidade novamente? São tantas coisas.
Ás 5h00, o sol nasceu. Um chorrilho de raios solares infiltrou-se pela janela do meu quarto até meu rosto e rapidamente percebi, levantei-me e cobri a janela. Bocejei. Minha visão estava ofuscada, meio tonto e com um pouco de frio. Fui até o corredor para ver se havia alguém por lá, só para observar e vaguear sem rumo pela casa. Todos em suas camas. Fechei a porta devagar para não causar nenhum ruído e descalço fui até a cozinha no andar de baixo.
Abri a geladeira, observei seu conteúdo e escolhi uma simples maçã, só para não ficar de estômago vazio. Não estava totalmente claro ainda e sentia um pouco de sono. Caminhei até a biblioteca. Encostei a porta.
Liguei as luzes, felizmente, meus pais haviam trocado o lustre e concertado o prejuízo, minha desculpa? Vândalos e suas malditas e poderosas pedras. Quanto ao lustre, “desconhecia” a razão. Eles confiavam em mim, me senti um pouco mal por mentir, mas quem em sã consciência contaria tais acontecimentos a uma das pessoas mais incrédulas e apegadas a respostas cientificas? Eu não. Mesmo sendo meus pais, me julgariam perturbado ou no mínimo, retardado mental.
Não sei o que deu em mim para me fazer retornar ao local onde me machuquei – isso está parecendo as comuns e típicas histórias de amor, sempre nos machucamos e ocasionalmente, voltamos. Gostamos da dor -, mas de qualquer forma, voltei. Estava meio hipnotizado. Sem razão aparente.
Observei toda a sala. Toquei as mesas, dedilhei os livros e comecei a dançar. Sem música. Só por prazer, uma melodia suave veio em minha cabeça. Lentamente.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Capítulo Sete: Cingido pela Hostilidade, Parte 2.


Estávamos na biblioteca, sozinhos em casa e curiosos para saber o que havia causado o tal ruído misterioso.
Os corredores estavam escuros e uma lâmpada estava no chão.
- Olá, garotos – disse um fantasma de aparência meio velha e maldosa, suas roupas eram antigas e estavam em péssimo estado.
- Quem é você? Eu posso vê-lo. – perguntou Robert.
- Espera. Você também os vê, quer dizer, porque não me disse?
- Eu ia mas...
Então o fantasma o interrompeu dizendo:
- Ah, tolos. Poupem a discussão para depois!
Olhei um tanto nervoso para Robert, ele escondeu-me isso o tempo todo?
- Bom, meu nome é Sr. Thomas, e vim dar-lhes um aviso: Estaremos por aqui e é bom não cruzar nosso caminho ou teremos que tomar sérias atitudes – disse ele enquanto observava os livros e nos encarava rancorosamente.
-  Então, já pode ir embora – disse eu um tanto apavorado.
- Não, nada disso. Antes eu preciso testar as habilidades de resistência do Sr. Harry.
- Como assim?
- Vejamos.
As janelas que ficavam lá no topo da biblioteca explodiram em milhares de pequenos pedaços de vidros, em cima de nós dois.
- MAS, O QUE DIABOS ESTÁ TENTANDO FAZER, ME MATAR? – disse eu enquanto tirava os pedaços do meu corpo.
- Exatamente. Vamos ao outro teste, acha que consegue desviar desse afiado pedaço de vidro?
- Não ouse... – disse Robert rangendo os dentes de raiva.
Os pedaços de vidro flutuaram lentamente pelo ar e foram tomando velocidade em minha direção. Robert jogou-se na frente e os vidros o prenderam na parede como pregos. Certa quantidade de vidros agora miravam em mim.
- Corre Harry! – gritou Robert enquanto fazia força para se soltar da parede.
Então, desesperadamente, fui esbarrando nas coisas em meu caminho e me virei de costas para os pedaços e comecei a correr pelos corredores e altas estantes da biblioteca.
Estava pensando como iria me livrar daquilo, eles iriam me atravessar, me matar. Não tinha saída. E o fantasma somente ria em nossas caras.
Cheguei até o fim da biblioteca e esbarrei contra a parede, olhei para trás e lá estavam os afiados e triangulares pedaços de vidro.
- NÃO! – disse Robert ainda preso na parede - mate-me, mas deixe-o ir. Por favor.
O fantasma o encarou com desprezo e encaminhou em sua própria direção, veio flutuando até mim e me prendeu na parede com os vidros, com uma de suas mãos segurou o maior e mais afiado vidro e colocou-o no meu pescoço, deslizando-o suavemente, preparado para cortar meu pescoço a qualquer momento.
- Me desculpe criança, mas é esse que eu quero – disse Thomas enquanto me via sofrer e ofegar em sua frente.
Robert causaria um corte profundo em seus braços se tentasse se soltar naquele momento, mas o faz, guardando a dor para si, soltou-se e caiu no chão. Rapidamente ergueu-se e foi em minha direção.
- Basta! Mais um passo e seu amigo morre – disse o fantasma sério e disposto a me matar.
Uma exótica movimentação acontecia no lustre do teto acima de nós, não parava de se mexer... Seus parafusos giraram e giraram até que se desprenderam do teto e o lustre começou a cair lentamente.
Apressei-me e arranquei os vidros, o que eventualmente, cortou minhas mãos, e corri até Robert antes que o lustre caísse.
Poucos segundos depois, o lustre caiu e fez um enorme estrago no piso, estilhaços de lâmpadas e vidros inundaram o chão da biblioteca. O tal fantasma rapidamente se dissipou.
Robert pegou minhas mãos e olhou com uma cara não muito boa e disse:
- Precisamos cuidar disso, vamos até o banheiro.
- Ai. Tá bom, vamos.
Saímos da biblioteca e fomos até o banheiro, os estilhaços ficaram na biblioteca, precisávamos limpar aquilo depois.
- Me dê suas mãos, coloque-as aqui em baixo d’água, vai doer um pouco mais você consegue sobreviver – disse Robert ao chegarmos ao banheiro e ligar a pia.
Coloquei minhas mãos meio incertas embaixo da torneira, a água estava muito gelada e a sensação foi refrescante e ardente. O sangue não parava de sair dos cortes causados pelos vidros, parecia que era uma hemorragia interminável. Robert saiu do banheiro, para algum lugar.
Depois de determinado tempo, o sangramento parou e fechei a torneira, com um pouco de dificuldade. Robert voltou com algumas toalhas e enrolou minhas mãos nelas, me puxou até o meu quarto e fechou a porta.
- Pronto, isso vai fazer a dor ir embora, por algum tempo.
 Sorri para ele e vi que seus braços estavam com cortes profundos, meu sorriso desapareceu.
Levantei-me imediatamente e ignorei as dores vindas das mãos, examinei o ferimento e abri o meu guarda-roupa, em uma das gavetas tinha um kit de primeiro socorros, abri e tirei alguns pedaços gases, pinças, agulhas, linhas para pontuar.
- Vamos até o banheiro – disse enquanto puxava ele pelas mãos.
- O quê? O que é que você vai fazer? – perguntou enquanto soltava minhas mãos levemente.
- Eu preciso lavar isso e dar pontos, senão infecciona.
- Precisa mesmo fazer isso?
- Não, eu fico feliz com a ideia de você perder seus dois braços, sem problema.
- Tá, vamos – disse ele dirigindo-se ao banheiro.
- Tudo bem, tire a camisa.
- Tem ferimentos nas pernas também.
- Esses eu deixo que você mesmo cuide.
Ele olhou para mim rindo e tirou a camiseta com um pouco de dor, precisou de minha ajuda. Puxei a camiseta devagar e finalmente a tirei, estava encharcada de sangue. Pedi que ele lavasse os ferimentos com sabão.
- Vai arder, mas você sobrevive – disse ironicamente.
- Engraçado.
Quando começou a lavar, queixava-se de dor.
- Tudo bem, é só temporário.
- Aaaah, que dor. Eu sei, mas é doloroso.
 Depois de lavar os ferimentos dos braços, eu saí e mandei ele lavar os das pernas.
- Acha mesmo que eu consigo lavar os das pernas sozinho?
- Acho, não vou entrar aí e lavar suas pernas, já é demais – disse eu em um tom de voz meio alto.
- Vou tentar...
Seguidos gemidos de dor, foi o que eu ouvi durante uns 10 minutos.
- Pronto?
- É, acho que sim. Preciso das toalhas.
- Estão aí em cima da pia.
- Pode pegar para mim? Qualquer movimento dói.
- Ah, seu idiota – disse rindo.
Entrei no banheiro e dei as toalhas a ele.
- Aproveite e cobre essas pernas, não estou com vontade de te ver de cueca de novo.
- Ok, Senhor Impaciência.
Saí do quarto e o Robert ficou repousado na cama, minhas mãos estavam imóveis, não se mexiam. A essa altura, já eram 18h00, sábado, sem aula, ainda bem. Meus pais deveriam chegar ás 19h00 para o jantar e o Henry, mais tarde. Como foi que tudo aquilo me aconteceu? Agora podia ver fantasmas, e não só eu, Robert também, e precisávamos conversar sobre isso, depois. E isso estava me machucando, e as pessoas que eu me importava também... Fiquei confuso. Robert ficaria conosco para sempre? Onde ele morou este tempo todo? Tanta coisa para responder... E o que 17.12.1988 significa? O lustre caiu acidental ou propositalmente hoje à tarde?  Eu precisava descobrir e limpar o estrago antes que todos chegassem...
Henry, inesperadamente, chegou mais cedo, para minha infelicidade. Ouvi a porta bater e fui logo até a sala.
- Henry, você aqui, tão cedo. O que aconteceu? – disse eu escondendo as mãos nos bolsos.
- Não foi uma dos melhores filmes que eu já vi. Papai e mamãe, onde estão? – perguntou ele enquanto sentava-se no sofá e assistia TV.
- Não chegaram ainda...
-  Ah, atrasados como sempre. Traz-me um copo de suco, por favor?
- Já que pediu tão educadamente, tudo bem.
Fui até a cozinha e coloquei um pouco se suco para Henry, ao encostar minha mão ferida naquele recipiente gélido, senti um prazer enorme e um pouco de dor.  
- Aqui está.
Henry rapidamente viu através do copo parte da minha mão ferida.
- O que houve com sua mão? – perguntou curioso e preocupado.
- Ah, isso. Cortei-me na cerca.
- Não temos uma cerca.
Colocou o copo na mesa e levantou-se, pegou minha mão e analisou-a.
- Harry, a dor já passou, obrigado por ter lavado os meus...
Robert levou um susto ao ver Henry. Corou imediatamente.
Henry virou-se em minha direção e perguntou:
- Lavado o quê? Você lavou o quê? E porque ele está todo cortado? – nesse momento, virou-se para Robert, ainda sem camisa e sem calças.
- Eu posso explicar Henry – Robert disse tomando a culpa para si.
- Estou esperando.
- Bom, - explicou enquanto descia as escadas – Harry foi até a biblioteca me mostrar um livro e sem querer derrubei um copo de vidro no chão, ele foi tentar pegar os cacos de vidro e se cortou.
- E quanto a seus cortes gigantes?
- Ah, esses... – pensou Robert.
- Se cortou nos galhos de árvore lá fora, pedi para pegar uma coisa lá em cima, acabou se cortando todo... – disse eu complementando Robert.
- Ah, está explicado – disse Henry satisfeito.
Pensei em que sorte tivemos pelo improviso e pela falta de inteligência do Henry.
- Robert, aconselho você a subir e vestir algumas roupas... – sugeri.
- Ah, é.
Robert subiu pelas escadas, meio dolorido, e foi até meu quarto vestir-se.