sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Capítulo Sete: Cingido pela Hostilidade, Parte 2.


Estávamos na biblioteca, sozinhos em casa e curiosos para saber o que havia causado o tal ruído misterioso.
Os corredores estavam escuros e uma lâmpada estava no chão.
- Olá, garotos – disse um fantasma de aparência meio velha e maldosa, suas roupas eram antigas e estavam em péssimo estado.
- Quem é você? Eu posso vê-lo. – perguntou Robert.
- Espera. Você também os vê, quer dizer, porque não me disse?
- Eu ia mas...
Então o fantasma o interrompeu dizendo:
- Ah, tolos. Poupem a discussão para depois!
Olhei um tanto nervoso para Robert, ele escondeu-me isso o tempo todo?
- Bom, meu nome é Sr. Thomas, e vim dar-lhes um aviso: Estaremos por aqui e é bom não cruzar nosso caminho ou teremos que tomar sérias atitudes – disse ele enquanto observava os livros e nos encarava rancorosamente.
-  Então, já pode ir embora – disse eu um tanto apavorado.
- Não, nada disso. Antes eu preciso testar as habilidades de resistência do Sr. Harry.
- Como assim?
- Vejamos.
As janelas que ficavam lá no topo da biblioteca explodiram em milhares de pequenos pedaços de vidros, em cima de nós dois.
- MAS, O QUE DIABOS ESTÁ TENTANDO FAZER, ME MATAR? – disse eu enquanto tirava os pedaços do meu corpo.
- Exatamente. Vamos ao outro teste, acha que consegue desviar desse afiado pedaço de vidro?
- Não ouse... – disse Robert rangendo os dentes de raiva.
Os pedaços de vidro flutuaram lentamente pelo ar e foram tomando velocidade em minha direção. Robert jogou-se na frente e os vidros o prenderam na parede como pregos. Certa quantidade de vidros agora miravam em mim.
- Corre Harry! – gritou Robert enquanto fazia força para se soltar da parede.
Então, desesperadamente, fui esbarrando nas coisas em meu caminho e me virei de costas para os pedaços e comecei a correr pelos corredores e altas estantes da biblioteca.
Estava pensando como iria me livrar daquilo, eles iriam me atravessar, me matar. Não tinha saída. E o fantasma somente ria em nossas caras.
Cheguei até o fim da biblioteca e esbarrei contra a parede, olhei para trás e lá estavam os afiados e triangulares pedaços de vidro.
- NÃO! – disse Robert ainda preso na parede - mate-me, mas deixe-o ir. Por favor.
O fantasma o encarou com desprezo e encaminhou em sua própria direção, veio flutuando até mim e me prendeu na parede com os vidros, com uma de suas mãos segurou o maior e mais afiado vidro e colocou-o no meu pescoço, deslizando-o suavemente, preparado para cortar meu pescoço a qualquer momento.
- Me desculpe criança, mas é esse que eu quero – disse Thomas enquanto me via sofrer e ofegar em sua frente.
Robert causaria um corte profundo em seus braços se tentasse se soltar naquele momento, mas o faz, guardando a dor para si, soltou-se e caiu no chão. Rapidamente ergueu-se e foi em minha direção.
- Basta! Mais um passo e seu amigo morre – disse o fantasma sério e disposto a me matar.
Uma exótica movimentação acontecia no lustre do teto acima de nós, não parava de se mexer... Seus parafusos giraram e giraram até que se desprenderam do teto e o lustre começou a cair lentamente.
Apressei-me e arranquei os vidros, o que eventualmente, cortou minhas mãos, e corri até Robert antes que o lustre caísse.
Poucos segundos depois, o lustre caiu e fez um enorme estrago no piso, estilhaços de lâmpadas e vidros inundaram o chão da biblioteca. O tal fantasma rapidamente se dissipou.
Robert pegou minhas mãos e olhou com uma cara não muito boa e disse:
- Precisamos cuidar disso, vamos até o banheiro.
- Ai. Tá bom, vamos.
Saímos da biblioteca e fomos até o banheiro, os estilhaços ficaram na biblioteca, precisávamos limpar aquilo depois.
- Me dê suas mãos, coloque-as aqui em baixo d’água, vai doer um pouco mais você consegue sobreviver – disse Robert ao chegarmos ao banheiro e ligar a pia.
Coloquei minhas mãos meio incertas embaixo da torneira, a água estava muito gelada e a sensação foi refrescante e ardente. O sangue não parava de sair dos cortes causados pelos vidros, parecia que era uma hemorragia interminável. Robert saiu do banheiro, para algum lugar.
Depois de determinado tempo, o sangramento parou e fechei a torneira, com um pouco de dificuldade. Robert voltou com algumas toalhas e enrolou minhas mãos nelas, me puxou até o meu quarto e fechou a porta.
- Pronto, isso vai fazer a dor ir embora, por algum tempo.
 Sorri para ele e vi que seus braços estavam com cortes profundos, meu sorriso desapareceu.
Levantei-me imediatamente e ignorei as dores vindas das mãos, examinei o ferimento e abri o meu guarda-roupa, em uma das gavetas tinha um kit de primeiro socorros, abri e tirei alguns pedaços gases, pinças, agulhas, linhas para pontuar.
- Vamos até o banheiro – disse enquanto puxava ele pelas mãos.
- O quê? O que é que você vai fazer? – perguntou enquanto soltava minhas mãos levemente.
- Eu preciso lavar isso e dar pontos, senão infecciona.
- Precisa mesmo fazer isso?
- Não, eu fico feliz com a ideia de você perder seus dois braços, sem problema.
- Tá, vamos – disse ele dirigindo-se ao banheiro.
- Tudo bem, tire a camisa.
- Tem ferimentos nas pernas também.
- Esses eu deixo que você mesmo cuide.
Ele olhou para mim rindo e tirou a camiseta com um pouco de dor, precisou de minha ajuda. Puxei a camiseta devagar e finalmente a tirei, estava encharcada de sangue. Pedi que ele lavasse os ferimentos com sabão.
- Vai arder, mas você sobrevive – disse ironicamente.
- Engraçado.
Quando começou a lavar, queixava-se de dor.
- Tudo bem, é só temporário.
- Aaaah, que dor. Eu sei, mas é doloroso.
 Depois de lavar os ferimentos dos braços, eu saí e mandei ele lavar os das pernas.
- Acha mesmo que eu consigo lavar os das pernas sozinho?
- Acho, não vou entrar aí e lavar suas pernas, já é demais – disse eu em um tom de voz meio alto.
- Vou tentar...
Seguidos gemidos de dor, foi o que eu ouvi durante uns 10 minutos.
- Pronto?
- É, acho que sim. Preciso das toalhas.
- Estão aí em cima da pia.
- Pode pegar para mim? Qualquer movimento dói.
- Ah, seu idiota – disse rindo.
Entrei no banheiro e dei as toalhas a ele.
- Aproveite e cobre essas pernas, não estou com vontade de te ver de cueca de novo.
- Ok, Senhor Impaciência.
Saí do quarto e o Robert ficou repousado na cama, minhas mãos estavam imóveis, não se mexiam. A essa altura, já eram 18h00, sábado, sem aula, ainda bem. Meus pais deveriam chegar ás 19h00 para o jantar e o Henry, mais tarde. Como foi que tudo aquilo me aconteceu? Agora podia ver fantasmas, e não só eu, Robert também, e precisávamos conversar sobre isso, depois. E isso estava me machucando, e as pessoas que eu me importava também... Fiquei confuso. Robert ficaria conosco para sempre? Onde ele morou este tempo todo? Tanta coisa para responder... E o que 17.12.1988 significa? O lustre caiu acidental ou propositalmente hoje à tarde?  Eu precisava descobrir e limpar o estrago antes que todos chegassem...
Henry, inesperadamente, chegou mais cedo, para minha infelicidade. Ouvi a porta bater e fui logo até a sala.
- Henry, você aqui, tão cedo. O que aconteceu? – disse eu escondendo as mãos nos bolsos.
- Não foi uma dos melhores filmes que eu já vi. Papai e mamãe, onde estão? – perguntou ele enquanto sentava-se no sofá e assistia TV.
- Não chegaram ainda...
-  Ah, atrasados como sempre. Traz-me um copo de suco, por favor?
- Já que pediu tão educadamente, tudo bem.
Fui até a cozinha e coloquei um pouco se suco para Henry, ao encostar minha mão ferida naquele recipiente gélido, senti um prazer enorme e um pouco de dor.  
- Aqui está.
Henry rapidamente viu através do copo parte da minha mão ferida.
- O que houve com sua mão? – perguntou curioso e preocupado.
- Ah, isso. Cortei-me na cerca.
- Não temos uma cerca.
Colocou o copo na mesa e levantou-se, pegou minha mão e analisou-a.
- Harry, a dor já passou, obrigado por ter lavado os meus...
Robert levou um susto ao ver Henry. Corou imediatamente.
Henry virou-se em minha direção e perguntou:
- Lavado o quê? Você lavou o quê? E porque ele está todo cortado? – nesse momento, virou-se para Robert, ainda sem camisa e sem calças.
- Eu posso explicar Henry – Robert disse tomando a culpa para si.
- Estou esperando.
- Bom, - explicou enquanto descia as escadas – Harry foi até a biblioteca me mostrar um livro e sem querer derrubei um copo de vidro no chão, ele foi tentar pegar os cacos de vidro e se cortou.
- E quanto a seus cortes gigantes?
- Ah, esses... – pensou Robert.
- Se cortou nos galhos de árvore lá fora, pedi para pegar uma coisa lá em cima, acabou se cortando todo... – disse eu complementando Robert.
- Ah, está explicado – disse Henry satisfeito.
Pensei em que sorte tivemos pelo improviso e pela falta de inteligência do Henry.
- Robert, aconselho você a subir e vestir algumas roupas... – sugeri.
- Ah, é.
Robert subiu pelas escadas, meio dolorido, e foi até meu quarto vestir-se.


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