A mão ainda repousava sobre meu ombro, o medo ainda alimentava-se de minha alma. De repente, com rapidez, uma dose de coragem foi colocada no meu peito, abri os olhos e decidi encarar, seria o fim ou a descoberta.
A mão retirou-se do meu ombro, virei-me. Não podia acreditar.
- Você me custou uma longa caminhada – disse Robert ofegante.
- COMO É QUE É?! MAS, QUE... QUE... VOCÊ SABE O TAMANHO DO MEDO QUE EU TIVE? EU ESTAVA ORANDO! O que diabos você quer?! – disse com a cabeça prestes a explodir.
- Calma, nem foi tão ruim. Você não é muito corajoso, é? – disse ele zombando de minha cara.
- Nossa, morri de rir. Sério cara, o que quer? Está me perseguindo? Andou tudo isso por algo muito importante, espero.
- Na verdade, sim. Você esqueceu seu celular lá na biblioteca.
- Não, não... Eu peguei nele agora. Espera. Vou checar meu bolso, está aqui.
- Tudo bem.
- Ah, droga. Não era o celular, eram pedras que eu peguei no caso de alguém tentar me matar...
- Ah, claro. Aqui está.
- Obrigado, mas, como soube que estava lá? Quer dizer, como...?
- Eu estava na biblioteca, e te vi lendo, vi que deixou algo no banco, e aqui estamos.
- Nossa, não acredito. Você veio lá do colégio até aqui só para, me dar meu celular? Não podia esperar até amanhã?
- Não. Digo, se fosse eu, gostaria que me devolvessem o mais rápido possível – disse ele um tanto nervoso e hesitante.
- Ah, de qualquer forma, foi muito legal de sua parte. Obrigado.
- Não precisa agradecer. Então, eu já vou indo – disse enquanto se virava.
- Tudo bem...
10 segundos depois, mudei de ideia.
- Espera, está muito escuro e pode ser perigoso, não acho uma boa ideia ir por aí. Fique lá em casa, mande seus pais irem te pegar lá.
- Tem certeza? Seus pais recebem pessoas desconhecidas?
- Claro que sim (risos) e você nem é tão desconhecido assim, já até pegou meu celular.
- Tudo bem, obrigado.
Fomos caminhando até a minha casa. Mas ainda estava perplexo, ele andou tudo isso por causa de um celular? Ou ele seria muito burro ou muito bondoso. Preferia acreditar na segunda opção.
Chegamos na minha casa, pedi que ele ficasse na sala vendo TV enquanto fui até a cozinha ver se havia alguma coisa na geladeira. Tinha muita comida, porém não sabia que tipo de comida o Robert comia, peguei o Quiche* de Pavê mesmo. Levei até a mesa da sala em um prato, fatiado e com um suco de abóbora.
- Espero que seja fã desse tipo de comida – disse eu um pouco pávido.
- Comida? Eu estava com um pouco de fome mesmo e não se preocupe, eu como de tudo, está ótimo. Obrigado.
- Ah, de nada.
Comemos enquanto estávamos assistindo um seriado bem engraçado. Apesar da hora, meus pais não haviam chegado e se o Henry estava em casa, eu não sabia.
- Robert, preciso checar uma coisa lá em cima, se importa? Volto em um instante.
- Ah, tudo bem. Quer que eu vá com você? Pode encontrar alguma criatura pavorosa lá – disse enquanto ria internamente.
- Você e suas piadas incrivelmente risíveis. Não, posso me virar sozinho – disse eu autoritário.
Subi as escadas, todas as lâmpadas do corredor superior e do centro da escada estavam apagadas, ótimo. Talvez a companhia de qualquer um não seria tão ruim. Pisei no último degrau e finalmente me deparei com o corredor. Fui andando suavemente – Henry podia estar dormindo – até a segunda porta á esquerda, seu quarto. A TV estava ligada, decidi ir embora já que supus que ele estaria ali, mas voltei para confirmar, ele não estava, não tinha ninguém lá. Pensei que ele poderia ter se esquecido de desligá-la. A porta estava entreaberta, luz apagada e só o brilho da TV iluminava o quarto. Entrei, fui até a TV e chutei algumas caixas, porcarias dele certamente, apertei o botão de “desligar” e a tela preta apareceu. Fechei a porta.
Estava de meias, o chão começou a ficar mais frio e um gás ia saindo da minha boca conforme eu falava, estava realmente muito frio. Chequei as janelas do fim do corredor, todas fechadas. As luzes começaram a falhar, piscando. Minha visão agora era um imenso corredor – já que andei até as janelas – quase sem iluminação e confundível. Estava silêncio, a TV lá embaixo já não podia mais ser ouvida.
E o mais extraordinário, não sentia medo. Sentia como se tivesse que enfrentar aquilo. Ergui minha cabeça, preparei minhas mãos e segui andando até o corredor. Repentinamente, senti uma coisa densa e flutuante atravessar-me. Não vi muito bem, algo como uma fumaça ligeiramente preta e transparente, que se dissipou em milésimos. Assustei-me, voltei a mim. Corri e desci desesperadamente pelas escadas, só queria sair dali, passei pela sala e fui até a varanda, na parte de trás da casa, abri a porta e fechei com violência, peguei muito ar, respirei e me acalmei. Apoiei-me com os dois braços na base de madeira da varanda. Robert percebeu a movimentação e correu até meu encontro.
- Harry, tá tudo bem? Cara, o quê que aconteceu? – disse ele meio desesperado enquanto tocava em mim.
Terminei de ofegar e respirar, a angústia estava indo embora.
- Eu, eu, eu... Eu – disse pausadamente e meio nervoso, enquanto pensava em uma desculpa aceitável, pode ser que ele não acreditasse.
- Calma, calma. Respira e me fala.
- Eu achei que tinha visto uma coisa, mas não foi nada, nada.
- O que você “acha” que viu? Não vou rir de você.
- Eu achei que tinha visto um..
Os meus pais chegaram, o barulho do carro era inconfundível. Fui salvo pelo gongo.
Fomos até a sala.
- Mãe, pai. Olá. Demoraram hein.
- Olá querido, seu pai acabou conversando com um velho amigo lá na firma, já imagina o decorrer do processo né?
- Ah, tá explicado.
Então, um silêncio tomou de conta da sala e todos ficaram se olhando.
- Ah, perdoe-me. Mãe, pai, este é o Robert Wattson, estuda com o Henry, um colega meu. Eu acabei vindo de ônibus, depois a pé e ele me acompanhou, eu esqueci o celular na biblioteca, então, ele veio me entregar.
- Nossa, de tão longe? Muito obrigado! É um garoto muito gentil. Quer jantar conosco?
- Eu acabei de comer Sra. Ward, mas obrigado.
- Não há de quê. Então, vou até a cozinha.
- Olá meninos – disse meu pai.
- Olá, pai.
- Olá, Sr. Ward.
- Robert, já volto.
Fui até a cozinha falar com meus pais. E minha mãe discretamente perguntou:
- Harry querido, o seu amigo Robert vai dormir aqui hoje? Já são 20h00, e pode ficar perigoso.
- Eu não sei mãe, preciso saber com ele. Mas, tudo bem se ele dormir aqui?
Meu pai entrou na conversa:
- Claro, seus amigos são nossos amigos.
- Ah, obrigado pai.
Cheguei na sala. Indaguei o Robert sobre algumas coisas.
- Robert, seus pais, eles vem te pegar..?
Robert olhou para meus pais e respondeu:
- Ah não. Eles estão viajando, posso ir sozinho. A pé.
- Não mesmo! Nesse caso, você dorme aqui hoje.
- Cara, não quero te causar problemas, não mesmo.
- Calma, é só uma noite. Sem problema.
- Mais uma vez, obrigado Harry. Mesmo.
- Não precisa agradecer.
Ficamos vendo TV até ás 22h00, meu pai estava na biblioteca e minha mãe na cama dela lendo algumas revistas. Henry ligou para avisar que chegaria somente ás 23h30, ia sair para o cinema. Subimos, eu e Robert, até meu quarto.
- Prefere ficar aonde? Temos um quarto de hóspedes, mas aqui tem duas camas e suíte. Você decide.
- Posso ficar aqui com você mesmo, assim não fica tão assustado.
- Nossa, você nunca vai esquecer isso, não é?
- Não.
- Me dê sua bolsa e seus tênis, vou colocá-los ali no canto. Pode usar meu banheiro, o uniforme é só colocar no cesto de roupas, amanhã já estão lavadas, e vou buscar roupas secas do Henry para você.
- Uau, não tenho o que dizer. Obrigado. Ah, eu gosto de azul.
- Ah eu vou pegar qualquer coisa mesmo – disse eu levemente rindo.
Assim que saí do quarto, Robert entrou no banheiro, e eu fui até o quarto de Henry de novo. Chegando lá...
Chegando lá o quê? Morri. Adiós.
ResponderExcluir