sábado, 19 de fevereiro de 2011

Capitulo Oito: Passeio pela Cidade.



O sol já estava indo embora, eram 19h00. Liguei para os meus pais e avisei que íamos – eu, Henry e Robert – até o restaurante da “cidade” comer alguma coisa e visitar alguns amigos. Fomos em um dos carros do papai, estava na garagem. Henry já sabia como dirigir, embora não havia tirado a carteira ainda. Mas, a fiscalização não era muito ativa pelo local, então... Passamos pela estrada que nos levou até a parada de ônibus á direita, mas decidimos seguir em frente na estrada do outro lado da pista, aonde chegaríamos até o restaurante, mais lá na frente.
Desde que moramos aqui em Cold Lake – sempre -, o restaurante está aberto, apesar da distância do centro da cidade, minha casa ainda fazia parte de Cold Lake. Trabalhavam dois funcionários e dois cozinheiros: George e Lisa Edwards, filhos de Richard e Angeline de mesmo sobrenome. O restaurante era vermelho por fora e possuía largos vidros que nos permitia ver seu interior. O local era humilde e simples, contudo, muito aconchegante. A comida era deliciosa, as pessoas aprazíveis e o local bem arejado.
Chegamos alguns minutos depois, saímos do carro e fomos até o restaurante.
Rapidamente, fomos atendidos por Lisa.
- Olá Lisa, bom te ver – disse eu sorridente.
- Ah, oi meninos. Hm, quem é o seu amigo? – perguntou Lisa simpática.
- Robert Wattson, muito prazer, Lisa, certo? – apresentou-se Robert enquanto pegou a mão de Lisa e a beijou.
- Ah isso. E muito prazer. O que vão pedir?
- Eu vou querer panquecas recheadas com caramelo e suco de acerola, por favor – pedi.
- Ah, como sempre né Harry? Café da manhã no jantar? – confirmou ela rindo.
- Exato.
- Eu vou querer uma porção de batatas fritas, bife e bastante arroz com queijo e um suco de abacaxi – pediu Henry faminto.
- E você, Senhor Wattson? – perguntou Lisa.
- Ah, eu vou pedir o mesmo de Harry, parece ser muito... Deleitável – solicitou um tanto pensativo.
 Ficamos na mesa de três assentos, da ponta próxima à porta, fiquei de frente ao Robert do lado esquerdo, Robert do lado direito e Henry no meio, de frente para o vidro. Havia crianças brincando lá fora, ao lado do restaurante não havia nada, ao contrário, era o primeiro ponto da cidade, após ele, as outras casas apareciam. Um grande campo cheio de crianças e pessoas. Pitoresco, de fato.
Então, Henry deu inicio a uma conversa com Robert, estava tentando se enturmar.
- Robert, o que gosta de fazer?
- Gosto muito de desenhar, ler, pintar, estar com os amigos e gosto de ouvir música em certos momentos.
- Ah, legal. De onde é?
- Calgary.
- Era bom lá?
- Sim, mas nada comparado a este lugar, nem a estas pessoas – respondeu ele observando as crianças e a paisagem e depois olhando para nós dois.
- Eu imagino, somos mesmo ótimos – comentou Henry presunçoso.
Neste momento, deu uma leve tapa em seu braço e olhei com um meio sorriso na cara.
Virei minha face para a rua, através do vidro, havia várias pessoas caminhando, mas havia uma parada sinalizando para mim lentamente, as pessoas atravessando-a e só eu podia vê-la. Meu rosto transfigurou-se, agora estava apreensivo. A leve dor de cabeça surgiu e minha respiração acelerou. Isso sempre me acontecia, com menos intensidade agora, talvez fosse porque a tal senhora fosse uma boa pessoa.
Robert estava conversando com Henry, mas ao mesmo tempo em que conversava, olhava para mim, já havia notado a minha apreensão. Virei-me para ele e não precisei mover meus lábios, ele já havia lido meus olhos. Paulatinamente, moveu sua cabeça para direita e avistou alguém, levou seus olhos as suas mãos inquietas e olhos desvairados. Não tínhamos ideias do que fazer, devíamos segui-la e deixar Henry só? Ou era só mais uma garantia de que realmente ela existia e podíamos enxergá-la?
 E mais uma vez, não tinha a resposta. Aliás, não tínhamos, éramos eu e Robert agora.
- Aqui estão os pedidos – disse Lisa quebrando nossa atenção e colocando os pratos e copos na mesa.
- Obrigado – agradeceu Henry.
Olhei novamente para a rua, nada além de pessoas de carne e osso. A tal Senhora adora nos visitar e simplesmente, saía de nossas vistas.
A minha preocupação cobriu o espaço no meu estômago para onde iria à comida e afastei com as mãos o prato para Robert.
- Espero que esteja com muita fome – disse eu com uma cara desgostosa.
Ele me pareceu sem fome de mesmo modo. Mas, tomou para si os dois pratos como se fossem de sua responsabilidade, comê-los.
Mirei-o com uma cara um tanto aflitiva. Sei bem o que é comer o que não gosto, aguentar o que detesto e fazer o que não me dá prazer. Puxei o prato e ele colocou a mão impedindo-me de comer e fitando-me.
Puxei novamente. Outra vez, ele impediu-me.
- Vem cá, vocês vão comer isso? – perguntou Henry com a boca cheia de comida.
Olhamos um pro outro e imediatamente empurramos os pratos em direção de Henry, pela primeira vez, sua gula foi nossa salvação.
Demos algumas risadas. Decidi pegar um dos guardanapos e pedi uma caneta a Lisa, escrevi os dizeres:
         ”O que vamos fazer?
Com o meu dedo, levei o guardanapo arrastando-o até o outro lado da mesa discretamente, de mesma maneira, Robert o pegou, leu e respondeu:
Bom... Eu não comi nada, então não vou pagar a conta. Relaxa, o Henry paga tudo rs”
Escrevi uma réplica e o entreguei:
Não sobre isso, seu idiota. Refiro-me a tal Senhora... Era a sua vó?”
Robert riu e escreveu e passou-o às minhas mãos.
Ah, suas réplicas sempre chocantes, frequentemente pueris ou duramente absurdas rs. Eu não consegui vê-la muito nitidamente, havia pessoas atravessando por ela”.
Rasguei o papel em pedaços e coloquei no lixeiro a pé da mesa, encerrando a conversa escrita.
Para passar o tédio, Robert tamborilava a mesa com suas mãos indo e voltando, em um ritmo musical. Admirei-me, vendo-o tão animado mesmo com todos os acontecimentos e até me juntei a ele, embora, um pouco desajeitado.
Bebi meu suco de acerola, Robert fez o mesmo. Pagamos a conta, agradecemos e saímos ao soar do sininho delicadamente colocado no topo da porta.
O clima daquele dia estava frio, um pouquinho menos que em minha casa, já que a quantidade de árvores era consideravelmente menor, eu morava, literalmente, no meio da floresta.
Henry foi até a casa de uns amigos a pé e Robert e eu preferimos ficar sentados em baixo de uma árvore do campo observando o movimento.
O vento estava incontrolável, porém muito agradável. 
- Crianças, tão ingênuas, carinhosas, perceptivas e expressivas – comentei em voz baixa sobre as crianças correndo a nossa volta.
- Concordo com você – disse Robert que estava contrário a mim, do outro lado da árvore, que talvez fosse a maior de todo o campo recreativo.
- “Do you ever feel, like you’re nothing..”  (Você já sentiu, como se não fosse nada...) – cantei um trecho de uma música baixinho enquanto desenhava com o dedo na grama...
- Já. Mas, isso foi até eu conhecer você, sua família, essa cidade e começar a viver tão bem. – comentou Robert enquanto me ajudava a desenhar com alguns lápis invisíveis.
Sorri amigavelmente para ele e continuamos desenhando coisas na grama, que possivelmente, só nós podíamos ver. Não, não eram fantasmas. Era a imaginação, somente.
Ficamos, eu e Robert, apontando para as casas e alguns prédios distantes, se perguntando o que seriam, nos divertimos bastante, Henry demorou cerca de uma hora fora. As luzes dos postes já haviam sido acesas e sequencialmente, iluminaram a rua. Despedimo-nos de algumas crianças que havíamos conhecidos e entramos no carro. O passeia havia sido maravilhoso para todos, a volta foi tranquila.
Quando chegamos a casa, o carro dos nossos pais já estava na garagem, haviam chegado. Entramos.
- Olá meninos. Se divertiram muito? – perguntou mamãe enquanto jantava.
- Ah, sim. Bastante.
- Foi demais.
- Inesquecível.
Respondemos sequencialmente.
- Wow, parece que se divertiram mesmo. Já devem ter comido, certo? – perguntou papai enquanto comia sua torta.
- Sim, muito. E sim, já comemos.  – respondeu Robert muito entusiasmado.
- Aliás, Henry comeu tudo. Estamos com fome – respondi olhando para Henry com ar de riso.
Preferiu nem retrucar. Subiu as escadas e foi para seu quarto.
Sentamos a mesa, comemos e logo em seguida fomos dormir. Amanhã era domingo e meus pais passariam o dia fora, ou seja, trabalho para nós. Não tínhamos nenhum plano para amanhã, mas queria fazer alguma coisa. Sair de casa um pouco. Quem sabe ir nadar no lago? Visitar a floresta? Visitar a cidade novamente? São tantas coisas.
Ás 5h00, o sol nasceu. Um chorrilho de raios solares infiltrou-se pela janela do meu quarto até meu rosto e rapidamente percebi, levantei-me e cobri a janela. Bocejei. Minha visão estava ofuscada, meio tonto e com um pouco de frio. Fui até o corredor para ver se havia alguém por lá, só para observar e vaguear sem rumo pela casa. Todos em suas camas. Fechei a porta devagar para não causar nenhum ruído e descalço fui até a cozinha no andar de baixo.
Abri a geladeira, observei seu conteúdo e escolhi uma simples maçã, só para não ficar de estômago vazio. Não estava totalmente claro ainda e sentia um pouco de sono. Caminhei até a biblioteca. Encostei a porta.
Liguei as luzes, felizmente, meus pais haviam trocado o lustre e concertado o prejuízo, minha desculpa? Vândalos e suas malditas e poderosas pedras. Quanto ao lustre, “desconhecia” a razão. Eles confiavam em mim, me senti um pouco mal por mentir, mas quem em sã consciência contaria tais acontecimentos a uma das pessoas mais incrédulas e apegadas a respostas cientificas? Eu não. Mesmo sendo meus pais, me julgariam perturbado ou no mínimo, retardado mental.
Não sei o que deu em mim para me fazer retornar ao local onde me machuquei – isso está parecendo as comuns e típicas histórias de amor, sempre nos machucamos e ocasionalmente, voltamos. Gostamos da dor -, mas de qualquer forma, voltei. Estava meio hipnotizado. Sem razão aparente.
Observei toda a sala. Toquei as mesas, dedilhei os livros e comecei a dançar. Sem música. Só por prazer, uma melodia suave veio em minha cabeça. Lentamente.

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