segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Capítulo Nove: Misterioso Aparecimento


E lá estava eu, dançando sem música alguma em uma biblioteca assombrada ás 5h05 da manhã...
Fechei os olhos e escutei a melodia em minha mente, era um tipo de valsa compassada de uma pessoa só. De repente, tropecei em meus próprios pés descalços e senti meu corpo caí ao chão...
Caí e acho que o ruído da queda pôde ser ouvido pela casa inteira, orei para que não. Permaneci no chão, aquela dor me trouxe prazer, me deu consciência do que estava fazendo, estava meio paranoico. Fechei os olhos e imaginei milhares de coisas. Tive um pesadelo com algumas pessoas que nunca havia visto antes e no fim dele ouvia Robert me chamar, distante.
- Harry, Harry, Harry! – gritou Robert desesperado quando desceu as escadas – ainda de pijamas brancos, sem camisa e descalço – e me viu naquele estado.
Abri os olhos, havia dormido e quando acordei a primeira a ver foi o rosto de Robert olhando para meus olhos com aflição. Suspirou ao ver que havia acordado.
- Como foi que foi parar aí? – perguntou ele meio descontrolado e com cara de sono com cabelos bagunçados e um tanto desequilibrado.
- Eu..eu.. – tentei me lembrar enquanto ele me puxou para levantar – estava dançando, então, eu caí.
Ele riu e perguntou:
- Estava dançando? Às 5h05 da manhã sem música alguma em uma biblioteca potencialmente perigosa?
- Eu me fiz essa mesma pergunta, mas não achei que soaria tão ruim até você me dizer – disse enquanto tocava minha cabeça, estava sangrando.
- Mas, o quê..?
Robert tocou minha cabeça e viu o sangue.
- Robert, não é nada.
Senti-me um pouco tonto e desmaiei. Acordei uma hora depois no hospital.
Acordei em uma sala branca com duas cadeiras na ponta esquerda ao meu lado com Robert e mamãe sentada nelas.
- Mãe, o que houve..? – perguntei com um pouco de dificuldade.
- Filho, você bateu a cabeça e desmaiou. Robert foi nos chamar imediatamente, e os trouxemos até aqui, o médico disse que repouso e descanso te farão bem. Não deve se esforçar tanto. Vou até o seu pai e seu irmão ver como estão os exames finais, já volto.
Robert levantou-se e permaneceu em pé, com suas mãos devidamente guardadas nos bolsos, me fitando alguns minutos. Abaixei minha cabeça.
- Fiquei preocupado com você, muito – disse ele com a voz meio baixa.
- Não deveria, vaso ruim demora a quebrar...
- Para – replicou ele rapidamente -, você poderia ter morrido, eu não sei. E isso não é engraçado, não é.
Virou seu rosto para o lado.
- Robert, eu só estava brincando... Acalma-se. Desculpa – desculpei-me um tanto arrependido.
Ele se aproximou e puxou a cadeira para próximo a mim, sentou-se. Puxou minha mão e com seu dedo foi subindo... Aquilo me fez cócegas.
- Harry, existia uma pessoa. Muito só. Cheguei até a ter dó de sua solidão. Ele viajou e viajou. Até que ele chegou a uma cidade – disse ele levando o braço até o meio do meu braço.
- E então?
- E então, ele chegou a uma escola nova – andou um pouco mais com o dedo.
- Conheceu pessoas novas – subiu devagar até o ombro.
- Mas, uma em especial, fez a diferença em sua vida. Ensinou-o como mentir, ser mais brincalhão, rir, mostrar como ele realmente era. Essa pessoa foi e é acima de tudo, meu melhor amigo. Ou muito mais do que isso... – suavemente moveu seu dedo até meu coração.
- E hoje, ele vive aqui. No seu coração, e você vive no dele – conclui sorrindo para mim com uma lágrima escorrendo pelo seu rosto até minha mão.
Senti-me culpado por sua felicidade. Mas, principalmente, senti-me culpado por suas lágrimas.
Sorri, puxei sua mão e coloquei a lágrima delicadamente em seus cílios.
- Ninguém, nem mesmo eu, merece fazer você derramar uma lágrima.
- Lágrimas nem sempre significam tristeza Harry. Lágrimas podem significar alegria – disse ele enquanto passou o dedo pelo olho e tocou minha mão.
- Sabe Robert. Amigos são definitivamente as coisas mais importantes da sua vida, sua segunda família. O amor sempre acaba, a amizade não. A amizade não permite ciúmes, permite sorrisos. Fico extremamente feliz por ter você como amigo e mais feliz ainda por estar aqui, mesmo em razões tão bobas.
- Eu só tenho um amigo. Fico feliz por ser você.
Meus pais entraram acompanhados do médico.
- E aí rapaz? Melhor? – perguntou o médico.
- Com certeza, sim.
- Te examinamos, está tudo bem. Só uma pancada forte. Infelizmente, terá que dormir aqui esta noite, só como garantia – disse o médico enquanto anotava algumas coisas e olhava para todos.
- Temos algumas camas e suítes no fim do corredor, usado para internações, mas se algum de vocês quiser dormir aqui, podem utilizá-lo.
- Eu tenho certeza que meu irmão ficará bem sem mim, vou dormir em casa – disse Henry.
- Harry, a mamãe ou papai pode ficar com você, se quiser – disse mamãe.
- Eu também posso, não tenho nada para fazer – ofereceu-se Robert.
- Papai, Henry podem ir para casa. Mamãe e Robert podem ficar comigo. Obrigado.
Providenciamos o quarto, me transferiram para lá e lá ficamos. E o dia passou. O sol se pôs. Anoiteceu. Eram 19h00.
Meus planos para o domingo foram destruídos por minha culpa. Estava em um hospital preocupando quem eu amo, ao invés de estar em qualquer outro lugar no mundo.
Havia certa gritaria do lado de fora do meu quarto, uma mulher. Robert e minha mãe haviam ido até a lanchonete do hospital comer alguma coisa. Decidi sair para ver o que estava acontecendo, estava comente com aquelas roupas longas e brancas de hospital, nada de soro ou medicação.
- ME DEIXEM VER MEU FILHO, EU PRECISO SABER COMO ELE ESTÁ! – gritava a tal mulher desesperada com uma das atendentes.
Vi um adolescente com uma roupa de hospital caminhando em direção a mulher, era seu filho.
Meus olhos encheram de lágrimas. Somente eu podia vê-lo. Ele estava morto. Não havia resistido. Ele olhou para mim parecendo confuso, não entendendo a situação. Veio até a mim.
- Você pode me ver...? – perguntou ele pesaroso, como se eu fosse sua ultima esperança.
- Posso, posso sim – respondi com uma dor imensurável.
Engoli a seco, não ia ter coragem de contar o que estava acontecendo a ele, me parecia tão confuso e disposto a fazer tudo para continuar ao lado da mãe. As pessoas passavam de um lado para o outro e lá estava eu chorando conversando com algo que só eu podia ver.
- Então, o que aconteceu? Porque ninguém consegue me ver? E porque meu corpo está na capa e eu estou aqui? Minha cabeça não está processando tudo isso.
Respirei lentamente e enchi meus pulmões de ar, como meio de criar coragem.
- Qual o seu nome? – perguntei enxugando minhas lágrimas com o braço.
- Peter, Peter Phillips.
- Peter, eu posso te ver por alguma razão, ainda não sei. Mas – mordi meus lábios – você... Não resistiu. Você morreu.
- Não, não. Eu não posso, minha mãe, ela só tem a mim.. Não pode ser – revogou ele colocando as mãos na cabeça um tanto desesperado.
- Eu sei Peter, mas... Chegou a hora.
Peter parecia disposto a fazer a coisa certa... Despediu-se de sua mãe e foi embora, para o outro lado.
Voltei para minha cama e adormeci.


Amanheceu. Espreguicei-me, estirando meus braços, bocejando, ainda pelo efeito do sono. Limpei meus olhos e avistei Robert e mamãe ainda deitados. Sentia-me bem melhor, a minha cabeça parecia recuperada e me sentia energético, ativo. Eram 08h00. O café da manhã do hospital – com aparência repugnante, por sinal – estava sobre uma mesa que ficava na lateral da sala, não ia comer aquilo de forma alguma, precisava voltar para casa, meu colchão macio e frio me aguardava, o piso de madeira, o ambiente em si.
Abri a porta do quarto e fechei silenciosamente, o chão do corredor estava gelado devido à umidade e ao chuvisco da noite passada. Estava sendo ventilado em locais um tanto particulares. Fui até a recepção.
- Com licença... Eu estou internado naquele quarto, o de número 96 – disse eu enquanto apontava para o quarto há alguns metros de distância, mirei o número por alguns segundos, como se houvesse algo que eu devesse ver – e já estou me sentindo bem, vocês não podiam me dar alta?
- Qual o seu nome? – perguntou a recepcionista.
- Oh, claro. Harry Green Ward.
A recepcionista de nome Emilly Gissing checou no computador e disse:
- O Dr. William Isherwood vai liberá-lo brevemente, no máximo ás 10h00. Eu sugiro ao senhor dirigir-se até o quarto e permanecer na posição que estava, deitado e repousando – nesse momento, dirigiu seus olhos pretos para minha face e me olhou seriamente -.
Esquivei meu olhar e respondi de cabeça baixa.
- Tudo bem, já estou indo...
Caminhei, pé ante pé, na ponta dos dedos, até o meu quarto. O chão estava realmente frio.
Fechei a porta silenciosamente.
Fui andando de costas ainda na ponta dos dedos até encontrar a cama, apalpando os objetos.
Toquei em um tecido meio quente e macio, era um casaco, estranhei, o lençol da cama era de seda e não algodão. Movi-me para trás e avistei Robert um tanto sonolento.
- Bom dia campeão, está melhor? – perguntou Robert enquanto se recompunha, seu cabelo estava assanhado e suas roupas, amarrotadas. Possuía uma aparência de quem havia caído da cama. Meio tonto.
Ri de sua aparência um tanto bagunçada e dirigi-me até a cama, sentei-me.
- Sim, melhor do que o previsto e pronto para ir para casa. Amém.
Robert viu se reflexo no espelho logo acima de mim e percebeu seu atual estado, rapidamente reorganizou-se.
Mamãe, um tanto atordoada, levantou-se da cama meio desconfortável.
- Bom dia meninos... Nunca senti tanta falta do meu travesseiro na vida – reclamou ela espreguiçando-se.
- Nosso sofrimento vai acabar, o Dr. William alguma coisa vem aqui no máximo, ás 10h00. Só temos que esperar... – olhei para o relógio para conferir.
- Uma hora e cinquenta e cinco minutos – disse Robert preciso.
- Exato – confirmei.
O tempo se passou... E finalmente, o doutor chegou, um pouco mais cedo que o esperado, felizmente.
- Ah, já estão todos acordados? Bom dia, rapazes e senhora – cumprimentou o Dr.
- Bom dia – respondemos todos.
- O quadro do paciente está muito bom, por isso, irei dar alta hoje mesmo. Só preciso finalizar umas coisas e já volto com os exames e a liberação autorizada.
- Tudo bem Doutor, obrigado – agradeceu mamãe.
- Não por isso – disse o doutor saindo do quarto.
Não tinha entendido o episódio ocorrente mais cedo, o do fantasma. De qualquer forma, tentei esquecer isso, não era tão importante assim e nada que o Robert precisasse saber.
O hospital chamava-se “Middleview Hospital”, ficava na cidade de mesmo nome, há 11 km de Cold Lake. Não que Cold Lake não tivesse hospitais, mas, o de Middleview parecia mais conveniente. Era segunda-feira, tínhamos aula a tarde, ás 13h10. Já eram 09h00. O tempo de viagem era de menos de uma hora, geralmente. O médico chegou, deu alta, e fomos para Cold Lake.
A vista durante a “viagem” era linda, árvores, verdor e muitos animais, aquilo chegou a me instigar a entrar na floresta e ficar lá para sempre.
Chegamos à estrada que levava para nossa casa, viramos a esquerda e seguimos direto.  
De repente, no meio da estrada, o carro parou. Bruscamente, pulamos para frente, mas ninguém se feriu. Minha mãe desceu do carro para checar se tínhamos atropelado algo e ver o motor.
Robert olhou para mim indicando mentalmente o que teria provocado tal coisa. Neguei com a cabeça, esperando fortemente que não fosse um fantasma, mas ele dolorosamente concordou.
Saímos do carro, me aproximei da mamãe.
- Mãe, já descobriu o que aconteceu? – perguntei enquanto olhava para os lados procurando pelo tal fantasma.
- Não, que estranho... Não atropelamos nada ou mesmo identifiquei problemas no motor...
- Que tal ir chamar o papai, ele está em casa, em uns 10 minutos você chega em casa, ficamos aqui vigiando o carro – sugeri como forma de ficarmos sozinhos.
- não, não posso deixá-los aqui, sozinhos – negou ela.
- Senhora Ward, eu protejo o Harry. Além do mais, está claro, ninguém se atreveria a fazer algo muito arriscado – disse Robert tentando persuadir a mamãe.
- Sendo assim, eu vou, mas se cuidem. Volto em 10 minutos – disse ele seguindo em direção a casa.
Finalmente, minha mãe dobrou a curva. Não podíamos a ver, nem ela podia nos ver.
- Quem é você? Apareça – gritei.
De repente, o corpo de Robert começou a se mexer, movimentos estranhos.
- Robert, está tudo bem? – perguntei tocando em seu ombro.
Ele virou-se para mim com os olhos raivosos e vermelhos.
- NÃO. Você! Não vai me destruir, eu não quero, você não pode, NUNCA! – gritou ele enquanto me levantava com seus braços e me apertava.
- Robert, você está me machucando, me solte – pedi enquanto olhava seriamente para ele.
- Me desculpe, mas Robert não está em casa agora, Elliot está – exclamou ele ao me jogar no chão.
Sacudi a poeira do meu corpo e me levantei.
- Mas, o que você quer? – perguntei calmamente.
Ele circundou o carro vagarosamente, parecia ter se acalmado.
- Eu? O que eu quero? Ora, você já deveria saber a esta altura. Não deveria? – perguntou ele um tanto irônico.
- Não quero que envolva ninguém nisso, a não ser eu.
- Isso só depende você, Harry...
O espírito ruim parecia ter ido embora, temporariamente, Robert sacudiu a cabeça como se algo estivesse dentro dele e olhou para mim.
- Aconteceu alguma coisa...? – perguntou ele parecendo um tanto perdido.
- Você acabou de ser possuído por um espírito mau, nada tão grave. Não entendi o que ele quis dizer. Isso tudo só me faz ficar mais confuso. Não sabia que tinha corpo aberto – disse enquanto olhava para ele.
- Possuído? Não me lembro de nada... Nem eu sabia que tinha corpo aberto.
Estava confuso. Minha mente estava longe, desconhecia o que deveria saber ou o que ele queria. Talvez fosse mais um daqueles espíritos malignos.


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