De fato, Robert tinha chegado de uma maneira um tanto repentina na minha vida, acho que já posso considerá-lo um amigo, embora ainda tenhamos que nos conhecer bastante.
Fui até o quarto do Henry pegar umas roupas para o Robert, o difícil seria encontrar alguma roupa limpa lá. Depois de “nadar” no mar de roupas fétidas, sujas e um tanto molhadas – temia sugerir o que fosse tal líquido -, finalmente encontrei um pijama intacto e uma cueca sem nenhum buraco. Aquilo estava preocupante.
Ouvi uns estalos na janela do corredor. Hesitei, mas a curiosidade foi superior. Adoro usar meias, ainda com elas, fui até a janela, entreaberta e travada. Um vento muito forte e frio vinha do lado de fora, quem abriu a janela?
Aquela sensação de que estava sendo observado passava por mim, a dor aguda no tórax novamente, havia alguém ali.
- Tem alguém aí? - disse eu um pouco amedrontado e curioso.
Um fino e audível assobio invadiu minha mente e me deixou inconsciente, eu mal podia mexer-me, aquilo me congelou, estava fora de mim. Porque ninguém mais escutava, porque ninguém parecia se importar comigo? Eu estava só, naquele corredor, tomado pelo medo e desespero, quem sabe loucura, no chão, parecendo que o melhor para mim naquele momento seria um hospício.
Depois daquilo só me lembro de vagamente de um indivíduo, ou seria um animal? De qualquer forma, era algo material de forma indefinido que se movimentava parecendo pedir ajuda.
Perdi noção de tempo, espaço e tudo que pudesse ser perdido.
Meu corpo foi erguido e pairado no ar até um objeto macio, confortável e altamente carinhoso, era uma cama. Pulei imediatamente, tinha voltado a si. A primeira coisa que vi foi alguém de toalha olhando meio preocupado para mim, esperava que fosse uma garota vestida daquele jeito e não Robert.
- Como... Onde... Por que... O quê aconteceu? – disse eu impaciente, olhando para todos os lados, tentando entender o ocorrido.
- Ei Senhor Impaciência, se acalma. Eu estava no meio do banho, e ouvi um barulho um tanto quanto oco e fui ver o que se passava, e adivinha? Encontrei-te desmaiado no chão á frente da janela, acho que você bateu com a cabeça ou algo do tipo.
- Não, eu não bati a cabeça, eu vi alguma coisa. Não consigo lembrar o quê, mas minha cabeça realmente dói só de tentar pensar.
- Falando nisso, você ainda não me disse o que você viu hoje, o que te fez descer histericamente as escadas.
Eu admirava a calma do Robert em resolver as coisas, tão suave, tão lógico, tão inteligente e tão misterioso. Era como meu irmão mais velho, embora nada soubesse dele.
- Então, você ainda não me falou de você. Irônico, você dorme na minha casa e eu nem ao menos sei sua idade – disse enquanto tentava mudar de assunto e conhecê-lo melhor.
- Tudo bem, mas acho melhor eu me vestir primeiro, posso pegar um resfriado com essa toalha muito tempo – disse ele um tanto cômico.
O relógio marcou 23h30, fui até a janela do meu quarto e observei se Henry já havia chegado. Um barulho de motor soou na porta, era o Henry e seus amigos meio extraviados.
Quando me virei, o Robert estava trocando-se, ele ficou nu e vestiu a cueca como se fosse a coisa mais normal do mundo, mais normal até do que respirar. Por sorte, a toalha estava sobre ele. Adiou para mim, a visão do inferno.
Henry subiu as escadas rindo muito e parecendo satisfeito daquela noite, fiquei feliz por vê-lo tão risonho. Foi direto ao meu quarto.
- Harry, preciso te contar como foi a noi.. – disse ele entrando no meu quarto e se deparando com o Robert com o seu pijama deitado na cama.
- Ah, olá Henry. Parece que alguém se divertiu hoje.
Henry parecia mais confuso e leso que o normal. Chamou-me para fora do quarto, fechou a porta e foi logo me interrogando.
- Harry, o que o Wattson está fazendo aqui? No seu quarto, com o meu pijama e deitado na sua cama? – disse ele tão rápido que levei certo tempo para separar as palavras e formar uma frase.
- Os pais dele viajaram e ele precisava ficar na casa de alguém, e ele me ajudou muito hoje, não tinha roupas e como usa seu tamanho, peguei as únicas limpas e inteiras do seu guarda-roupa.
- Enfim... Eu estou indo dormir, morto de sono. Boa noite e cuidado. Não confio nesse cara.
Henry parecia não ter se dado muito bem com o Robert, eu não vi razões para isso.
Eu e Robert conversamos a noite toda. Ele nasceu em Calgary, perto de Cold Lake, tem 17 anos, perdeu os pais em um acidente de carro, e foi criado pela avó e o avô. Gosta muito de desenhar, pintar, nadar e ler. Ficávamos cada dia mais próximos. Parece que o colégio não era tão entediante e solitário assim. Não mais.
Amanheceu, acordei um tanto cedo e a cama do Robert estava feita, ele já havia se levantado, geralmente, eu acordava primeiro que todos, mas não foi assim aquela manhã. Minha cabeça ainda doía um pouco e vagas lembranças da noite passada me rodeavam.
Andei pela casa, todos dormindo. Desci as escadas um tanto zonzo, bocejava e me aquecia, estava frio como de costume. A cozinha era praticamente anexada à sala, não havia paredes intermediando, a cozinha era larga e muito requintada. A mesa estava servida com frutas, queijos, tortas e pães. E na varanda, o Robert estava apreciando a vista.
Aproximei-me meio receoso, e me coloquei ao seu lado.
- Robert, ainda de pijama? Se quiser, pode ficar (risos)
- Ah, isso. Eu fiquei com vergonha de te acordar e pedir mais roupas, seus sonhos pareciam estar te fazendo bem. – disse ele meio envergonhado.
- Não, não fizeram. Sonhei com alguém no lago, não compreendi. Nem sei o que vi noite passada – disse revirando os olhos e balançando a cabeça negativamente. Seja lá o que for, estava me consumindo, não aguentei e acordei de uma vez. Mas e você, teve bons sonhos?
- Sim, sim. Ah, acordei cedo e fiz isso, espero que gostem... Levei certo tempo, mas, precisava agradecê-los.
- Você é mesmo muito eficiente, não? Obrigado, de verdade. Isso está maravilhoso, parece delicioso. Espero que o sabor seja tão bom quanto a aparência.
- O que acha de irmos caminhar pelo campo, até o lago, só para sentir a brisa e conversarmos um pouco? – disse ele enquanto olhava para mim entusiasmado após quebrar a linha da conversa.
- Você quer mesmo ir deste jeito, digo, de pijama?
- Não vejo porque não. Você também está pijama, Harry.
- Tem razão, ambos estamos de pijamas, então vamos antes que todos acordem e notem nossa ausência, ficariam preocupados se notassem.
- Que belo gesto.
Olhou para mim admirando minha atitude e sorriu.
- Queria ter alguém para se preocupar.
- Seus avós, não?
- Eles morreram, não te disse?
- Não. Eu lamento, honestamente. Pode ficar quantos dias quiser.
- Obrigado.
Desta vez, meus lábios alargaram-se levemente e sorriram para ele, ele parecia tão feliz.
Robert era, definitivamente, o mais próximo que eu tinha de um amigo.
- Ei, suba nas minhas costas.
- O quê? Não! Porque?
- Só sobe nas minhas costas, vamos voar - disse ele.
- Tudo bem.
Apoie-me na varanda, e subi em cima dele, ergueu-me em seus braços e começamos a caminhar pela grama. Eu quase dormi. O relógio marcava 06h40.
Demoramos pouco mais de 20 minutos e chegamos ao lago. O Lago Gelado.
- Que belo gesto.
Olhou para mim admirando minha atitude e sorriu.
- Queria ter alguém para se preocupar.
- Seus avós, não?
- Eles morreram, não te disse?
- Não. Eu lamento, honestamente. Pode ficar quantos dias quiser.
- Obrigado.
Desta vez, meus lábios alargaram-se levemente e sorriram para ele, ele parecia tão feliz.
Robert era, definitivamente, o mais próximo que eu tinha de um amigo.
- Ei, suba nas minhas costas.
- O quê? Não! Porque?
- Só sobe nas minhas costas, vamos voar - disse ele.
- Tudo bem.
Apoie-me na varanda, e subi em cima dele, ergueu-me em seus braços e começamos a caminhar pela grama. Eu quase dormi. O relógio marcava 06h40.
Demoramos pouco mais de 20 minutos e chegamos ao lago. O Lago Gelado.
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